Critérios de base para a aplicação do capítulo VIII da Amoris Laetitia Região Pastoral Buenos Aires

Estimados sacerdotes:
Recebemos com alegria a exortação Amoris Laetitia, que nos chama acima de tudo a fazer crescer o amor dos esposos e a motivar os jovens a optar pelo casamento e a família. Esses são os grandes temas que nunca deveriam ser esquecidos ou ofuscados por outras questões. Francisco abriu várias portas na pastoral familiar e nós somos chamados a aproveitar este tempo de misericórdia, para assumir como Igreja.
Agora vamos nos deter somente no capítulo VIII, uma vez que se refere a “orientação do Bispo” (300), a fim de discernir sobre o possível acesso aos sacramentos por alguns “divorciados numa nova união”. Acreditamos ser conveniente, como bispos de uma mesma região pastoral, concordarmos em alguns critérios mínimos. Assim oferecemos, sem prejuízo para a autoridade que cada Bispo tem sobre sua própria diocese para esclarecê-los, complementá-los ou limitá-los.
1) Em primeiro lugar recordamos que não convém falar em “permissão” para aceder aos sacramentos, mas sim um processo de discernimento acompanhado por um pastor. É um discernimento “pessoal e pastoral” (300).
2) Neste caminho, o pastor deveria enfatizar o anúncio fundamental, o kerygma, que estimule ou renove o encontro pessoal com Jesus Cristo vivo (cf. 58).
3) O acompanhamento pastoral é um exercício da ‘via caritatis “. É um convite a seguir “o caminho de Jesus , o da misericórdia e de integração” (296). Este itinerário apela para a caridade pastoral do sacerdote que acolhe o penitente, o ouve com atenção e mostra o rosto materno da Igreja, uma vez que aceita a sua boa intenção e seu bom propósito de colocar a vida inteira à luz do Evangelho e de praticar a caridade (cf. 306).
4) Este caminho, não termina necessariamente nos sacramentos, mas pode orientar-se para outros modos de se integrar mais na vida da Igreja: uma maior presença na comunidade, a participação em grupos de oração ou reflexão, o compromisso em diversos serviços eclesiais , etc. (Cf. 299).
5) Quando as circunstâncias específicas de um casal tornam isso possível, especialmente quando ambos são cristãos com uma jornada de fé, se pode propor o compromisso de viver em continência. Amoris Laetitia não ignora as dificuldades desta opção (ver nota 329) e deixa em aberto a possibilidade de acesso ao Sacramento da Reconciliação quando eles falharem nesse propósito (ver nota 364, de acordo com o ensinamento de João Paulo 11 ao Cardeal W . Baum, de 22/03/1996).
6) Em outras circunstâncias mais complexas, e quando eles não puderem obter uma declaração de nulidade, a opção acima mencionada pode não ser viável de fato. No entanto, é também possível um caminho de discernimento. Se vier a reconhecer que, num caso particular, há limitações que diminuem a responsabilidade e culpa (cf. 301-302), particularmente quando uma pessoa considerar que cairia em uma falta subsequente prejudicial aos filhos da nova união, Amoris Laetitia abre a possibilidade de acesso aos sacramentos da Reconciliação e da Eucaristia (cf. notas 336 e 351). Estes, por sua vez, dispoem a pessoa a continuar a amadurecer e crescer com o poder da graça.
7) Todavia há que se evitar entender esta possibilidade, como sendo um acesso irrestrito aos sacramentos, ou como se qualquer situação pudesse ser justificada. O que se propõe é um discernimento que distinga adequadamente cada caso. Por exemplo, um cuidado especial exige-se para  “uma nova união que vem de um recente divórcio” ou “a situação de alguém que tenha falhado repetidamente em seus compromissos familiares” (298). Além disso, quando há uma espécie de apologia ou ostentação da própria situação”, como se ela fosse parte do ideal cristão” (297). Nestes casos mais difíceis, os pastores devem acompanhar pacientemente à procura de um caminho de integração (cf. 297, 299).
8) É sempre importante orientar as pessoas a colocar a sua consciência diante de Deus, e para isso é útil o “exame de consciência”, proposto em Amoris Laetitia 300, especialmente no que diz respeito a “como eles têm se comportado com seus filhos” ou com relação ao cônjuge abandonado. Quando houver injustiças não resolvidas, o acesso aos sacramentos é particularmente escandaloso.
9) Pode ser conveniente que um eventual acesso aos sacramentos se realize de forma reservada, especialmente quando situações de conflito estão previstas. Mas ao mesmo tempo não há que deixar de acompanhar a comunidade para que cresça num espírito de compreensão e acolhida, sem que isso implique em criar confusão no ensinamento da Igreja sobre o matrimónio indissolúvel. A comunidade é um instrumento da misericórdia que é “imerecida, incondicional e gratuita” (297).
10) O discernimento não se fecha, porque “é dinâmico e deve permanecer sempre aberto a novas etapas de crescimento e novas decisões que permitam realizar o ideal de maneira mais plena ” (303), segundo a “lei da gradualidade” (295) e contando com a ajuda da graça.
Somos antes de tudo pastores. Por isso, queremos acolher estas palavras do Papa: “Convido os pastores a escutar com carinho e serenidade, com o sincero desejo de entrar no coração do drama das pessoas e compreender seu ponto de vista, para ajudá-los a viver melhor e reconhecer o seu próprio lugar na Igreja “(312).
Com afeto em Cristo.
Bispos da Região
05 de setembro de 2016
* * *
O texto completo da carta original Papa Francisco em espanhol – escrito em resposta a este documento – pode ser visto a seguir:
Carta do Papa Francisco em apoio aos critérios de aplicação do capítulo VIII da “Amoris Laetitia”
CIDADE DO VATICANO, 05 de setembro de 2016
Mons. Sergio Alfredo Fenoy
Delegado da Região Pastoral Buenos Aires
Querido irmão:
Eu recebi a carta da Região Pastoral Buenos Aires “critérios básicos para a aplicação do capítulo VIII da Amoris Laetitia”. Muito obrigado por tê-la me enviado e felicito-os pelo trabalho que executaram: um verdadeiro exemplo de acompanhamento para os sacerdotes … e todos nós sabemos como é necessário essa proximidade do bispo com o clero e do clero com o bispo. O próximo “mais próximo” do bispo é o sacerdote e o mandamento de amar o próximo como a si mesmo começa para nós bispos,  precisamente com os nossos sacerdotes.
A carta é muito boa e expressa plenamente o sentido do Capítulo VIII da Amoris Laetitia. Não há outras interpretações. E eu tenho certeza de que fará muito bem. Que o Senhor os recompense por esse esforço de caridade pastoral.
E é precisamente a caridade pastoral que nos move a sair ao encontro dos alijados e uma vez encontrados, iniciar um caminho de acolhida, acompanhamento, discernimento e integração na comunidade eclesial. Sabemos que isso é trabalhoso, se trata de uma pastoral “corpo a corpo” que não se satisfaz com mediações programadas, organizacionais ou legalistas, mas necessária. Simplesmente acolher, acompanhar, discernir, integrar. Destas quatro atitudes pastorais, a menos cultivada e praticada é o discernimento; e eu considero urgente a formação no discernimento, pessoal e comunitário, em nossos seminários e presbitérios.
Finalmente, gostaria de lembrar que Amoris Laetitia foi o fruto do trabalho e da oração de toda a Igreja, com a mediação de dois Sínodos e do Papa. Portanto, eu lhes recomendo uma catequese completa da Exortação que certamente vai ajudar no crescimento, consolidação e santidade da família.
Mais uma vez agradeço-lhe pelo trabalho realizado e incentivo-os a seguir em frente nas diversas comunidades da diocese, com o estudo e a catequese da Amoris Laetitia.
Por favor, não se esqueçam de rezar e rezar por mim.
Que Jesus os abençoe e a Virgem os cuide.
Fraternalmente
Francisco

A ALEGRIA DO AMOR - SÍNTESE

Leia a síntese da Exortação "A alegria do amor"

Papa recebe abraço de crianças no México - AFP
08/04/2016 12:00
Cidade do Vaticano (RV) - Amoris laetitia” (AL - “A alegria do amor”), aExortação apostólica pós-sinodal “sobre o amor na família”, datada não por acaso de 19 de março, Solenidade de S. José, recolhe os resultados de dois Sínodos sobre a família convocados pelo Papa Francisco em 2014 e 2015, cujas Relações conclusivas são abundantemente citadas, juntamente com documentos e ensinamentos dos seus Predecessores e as numerosas catequeses sobre a família do próprio Papa Francisco. Contudo, como já sucedeu noutros documentos magisteriais, o Papa recorre também a contributos de diversas Conferências episcopais de todo o mundo (Quênia, Austrália, Argentina...) e a citações de personalidades de relevo, como Martin Luther King ou Erich Fromm. Ressalta em particular uma citação do filme “A Festa de Babette”, que o Papa recorda para explicar o conceito de gratuitidade.
Premissa
A Exortação apostólica chama a atenção pela sua amplitude e articulação. Está dividida em nove capítulos e mais de 300 parágrafos. Tem início com sete parágrafos introdutórios que evidenciam a plena consciência da complexidade do tema, que requer ser aprofundado. Afirma-se que as intervenções dos Padres no Sínodo constituíram um «precioso poliedro» (AL 4) que deve ser preservado. Neste sentido, o Papa escreve que «nem todas as discussões doutrinais, morais ou pastorais devem ser resolvidas através de intervenções magisteriais». Por conseguinte, para algumas questões «em cada país ou região, é possível buscar soluções mais inculturadas, atentas às tradições e aos desafios locais. De facto,“as culturas são muito diferentes entre si e cada princípio geral (...), se quiser ser observado e aplicado, precisa de ser inculturado”» (AL 3). Este princípio de inculturação revela-se como muito importante até no modo de articular e compreender os problemas, modo esse que, sem entrar nas questões dogmáticas bem definidas pelo Magistério da Igreja, não pode ser «globalizado».
Mas sobretudo o Papa afirma de imediato e com clareza que é necessário sair da estéril contraposição entre a ânsia de mudança e a aplicação pura e simples de normas abstratas. Escreve: «Os debates, que têm lugar nos meios de comunicação ou em publicações e mesmo entre ministros da Igreja, estendem-se desde o desejo desenfreado de mudar tudo sem suficiente reflexão ou fundamentação até à atitude que pretende resolver tudo através da aplicação de normas gerais ou deduzindo conclusões excessivas de algumas reflexões teológicas» (AL 2).
Capítulo primeiro: “À luz da Palavra”
Enunciadas estas premissas, o Papa articula a sua reflexão a partir das Sagradas Escrituras no primeiro capítulo, que se desenvolve como uma meditação acerca do Salmo 128, característico da liturgia nupcial hebraica, assim como da cristã. A Bíblia «aparece cheia de famílias, gerações, histórias de amor e de crises familiares» (AL 8) e a partir deste dado pode meditar-se como a família não é um ideal abstrato, mas uma «tarefa “artesanal”» (AL 16) que se exprime com ternura (AL 28), mas que se viu confrontada desde o início também pelo pecado, quando a relação de amor se transformou em domínio (cf. AL 19). Então, a Palavra de Deus «não se apresenta como uma sequência de teses abstratas, mas como uma companheira de viagem, mesmo para as famílias que estão em crise ou imersas nalguma tribulação, mostrando-lhes a meta do caminho» (AL 22).
Capítulo segundo: “A realidade e os desafios das famílias”
Partindo do terreno bíblico, o Papa considera no segundo capítulo a situação atual das famílias, mantendo «os pés assentes na terra» (AL 6), bebendo com abundância das Relações conclusivas dos dois Sínodo se enfrentando numerosos desafios, desde o fenômeno migratório à negação ideológica da diferença de sexo («ideologia de gênero»); da cultura do provisório à mentalidade anti-natalidade e ao impacto das biotecnologias no campo da procriação; da falta de habitação e de trabalho à pornografia e ao abuso de menores; da atenção às pessoas com deficiência ao respeito pelos idosos; da desconstrução jurídica da família à violência para com as mulheres. O Papa insiste no carácter concreto, que é um elemento fundamental da Exortação. E é este carácter concreto e realista que estabelece uma diferença substancial entre «teorias» de interpretação da realidade e «ideologias».
Citando a Familiaris consortio, Francisco afirma que «é salutar prestar atenção à realidade concreta, porque “os pedidos e os apelos do Espírito ressoam também nos acontecimentos da história” através dos quais “a Igreja pode ser guiada para uma compreensão mais profundado inexaurível mistério do matrimônio e da família”» (AL 31). Sem escutar a realidade não é possível compreender nem as exigências do presente nem os apelos do Espírito. O Papa nota que o individualismo exacerbado torna hoje difícil a doação a uma outra pessoa de uma maneira generosa (cf. AL 33). Eis um interessante retrato da situação: «Teme-se a solidão, deseja-se um espaço de proteção e fidelidade mas, ao mesmo tempo, cresce o medo de ficar encurralado numa relação que possa adiar a satisfação das aspirações pessoais» (AL 34).
A humildade do realismo ajuda a não apresentar «um ideal teológico do matrimônio demasiado abstrato, construído quase artificialmente, distante da situação concreta e das possibilidades efetivas das famílias tais como são» (AL 36). O idealismo não permite considerar o matrimônio assim como é, ou seja, «um caminho dinâmico de crescimento e realização». Por isso, também não se pode julgar que se possa apoiar as famílias «com a simples insistência em questões doutrinais, bioéticas e morais, sem motivar a abertura à graça» (AL 37). Convidando a uma certa “autocrítica” de uma apresentação não adequada da realidade matrimonial e familiar, o Papa insiste na necessidade de dar espaço à formação da consciência dos fiéis: «Somos chamados aformar as consciências, não a pretender substituí-las» (AL37). Jesus propunha um ideal exigente, mas «não perdia jamais a proximidade compassiva às pessoas frágeis como a samaritana ou a mulher adúltera» (AL 38).
Capítulo terceiro: “O olhar fixo em Jesus: a vocação da família”
O terceiro capítulo é dedicado a alguns elementos essenciais do ensinamento da Igreja acerca do matrimônio e da família. É importante a presença deste capítulo, porque ilustra de uma maneira sintética em 30 parágrafos a vocação à família de acordo com o Evangelho, assim como ela foi recebida pela Igreja ao longo do tempo, sobretudo quanto ao tema da indissolubilidade, da sacramentalidade do matrimônio, da transmissão da vida e da educação dos filhos. Fazem-se inúmeras citações da Gaudium et spes do Vaticano II, daHumanae vitae de Paulo VI, da Familiaris consortio de João Paulo II. 
O olhar é amplo e inclui também as «situações imperfeitas». Com efeito, lemos: «“O discernimento da presença das semina Verbi nas outras culturas (cf. Ad gentes, 11) pode-se aplicar também à realidade matrimonial e familiar. Para além do verdadeiro matrimônio natural, há elementos positivos também nas formas matrimoniais doutras tradições religiosas”, embora não faltem também as sombras» (AL 77). A reflexão inclui ainda as «famílias feridas», a propósito das quais o Papa afirma - citando a Relatio finalis do Sínodo de 2015 —«é preciso lembrar sempre um princípio geral: “Saibam os pastores que, por amor à verdade, estão obrigados a discernir bem as situações” (Familiaris consortio, 84). O grau de responsabilidade não é igual em todos os casos, e podem existir fatores que limitem a capacidade de decisão. Por isso, ao mesmo tempo que se exprime com clareza adoutrina, há que evitar juízos que não tenham em conta a complexidade das diferentes situações,e é preciso estar atentos ao modo como as pessoas vivem e sofrem por causa da sua condição» (AL 79).
Capítulo quarto: “O amor no matrimónio”
O quarto capítulo trata do amor no matrimônio e ilustra-o a partir do “hino ao amor” de São Paulo de 1 Cor 13, 4-7. O capítulo é uma verdadeira e autêntica exegese cuidadosa, precisa, inspirada e poética do texto paulino. Poderemos dizer que se trata de uma coleção de fragmentos de um discurso amoroso que cuida de descrever o amor humano em termos absolutamente concretos. Surpreende-nos a capacidade de introspeção psicológica evidenciada por esta exegese. O aprofundamento psicológico chega ao mundo das emoções dos cônjuges - positivas e negativas - e à dimensão erótica do amor.Este é um contributo extremamente rico e precioso para a vida cristã dos cônjuges, que não tinha até agora paralelo em anteriores documentos papais.
À sua maneira, este capítulo constitui um pequeno tratado no conjunto de um desenvolvimento mais amplo, plenamente consciente do carácter quotidiano do amor que se opõe a todos os idealismos: «não se deve atirar para cima de duas pessoas limitadas o peso tremendo de ter que reproduzir perfeitamente a união que existe entre Cristo e a sua Igreja, porque o matrimônio como sinal implica “um processo dinâmico, que avança gradualmente com a progressiva integração dos dons de Deus”» (AL 122). Mas, por outro lado, o Papa insiste de modo enérgico e firme no facto de que «na própria natureza do amor conjugal, existe a abertura ao definitivo» (AL 123) precisamente no íntimo daquela «combinação necessária de alegrias e fadigas, de tensões e repouso, de sofrimentos e libertações, de satisfações e buscas, de aborrecimentos e prazeres» (Al 126) que é de facto o matrimônio.
O capítulo conclui-se com uma reflexão muito importante acerca da «transformação do amor» uma vez que «o alongamento da vida provocou algo que não era comum noutros tempos: a relação íntima e a mútua pertença devem ser mantidas durante quatro, cinco ou seis décadas, e isto gera a necessidade de renovar repetidas vezes a recíproca escolha» (AL 163). A aparência física transforma-se e a atração amorosa não desaparece, mas muda: com o tempo, o desejo sexual pode transformar-se em desejo de intimidade e «cumplicidade». «Não é possível prometer que teremos os mesmos sentimentos durante a vida inteira; mas podemos ter um projeto comum estável, comprometer-nos a amar-nos e a viver unidos até que a morte nos separe, e viver sempre uma rica intimidade» (AL 163).
Capítulo quinto: “O amor que se torna fecundo”
O quinto capítulo centra-se por completo na fecundidade e no carácter gerador do amor. Fala-se de uma maneira espiritualmente e psicologicamente profunda do acolher uma nova vida, da espera própria da gravidez, do amor de mãe e de pai. Mas também da fecundidade alargada, da adoção, do acolhimento do contributo das famílias para a promoção de uma “cultura do encontro”, da vida na família em sentido amplo, com a presença de tios, primos, parentes dos parentes, amigos. A Amoris laetitia não toma em consideração a família «mononuclear», mas está bem consciente da família como rede de relações alargadas. A própria mística do sacramento do matrimônio tem um profundo carácter social (cf. AL 186). E no âmbito desta dimensão social, o Papa sublinha em particular tanto o papel específico da relação entre jovens e idosos, como a relação entre irmãos como aprendizagem de crescimento na relação com os outros.
Capítulo sexto: “Algumas perspetivas pastorais”
No sexto capítulo, o Papa aborda algumas vias pastorais que orientam para a edificação de famílias sólidas e fecundas de acordo com o plano de Deus. Nesta parte, a Exortação recorre às Relações conclusivas dos dois Sínodos e às catequeses do Papa Francisco e de João Paulo II. Volta-se a sublinhar que as famílias são sujeito e não apenas objeto de evangelização. O Papa observa que «os ministros ordenados carecem, habitualmente, de formação adequada para tratar dos complexos problemas atuais das famílias» (AL 202). Se, por um lado, é necessário melhorar a formação psicoafetiva dos seminaristas e envolver mais a família na formação para o ministério (cf. AL 203), por outro «pode ser útil também a experiência da longa tradição oriental dos sacerdotes casados» (AL 202).
Em seguida, o Papa desenvolve o tema da orientação dos noivos no caminho de preparação para o matrimônio, do acompanhamento dos esposos nos primeiros anos da vida matrimonial (incluindo o tema da paternidade responsável), mas também em algumas situações complexas e, em particular, nas crises, sabendo que «cada crise esconde uma boa notícia, que é preciso saber escutar, afinando os ouvidos do coração» (AL 232). São analisadas algumas causas de crise, entre elas uma maturação afetiva retardada (cf. AL 239).
Além disso, fala-se também do acompanhamento das pessoas abandonadas, separadas ou divorciadas e sublinha-se a importância da recente reforma dos procedimentos para o reconhecimento dos casos de nulidade matrimonial. Coloca-se em relevo o sofrimento dos filhos nas situações de conflito e conclui-se: «O divórcio é um mal, e é muito preocupante o aumento do número de divórcios. Por isso, sem dúvida, a nossa tarefa pastoral mais importante relativamente às famílias é reforçar o amor e ajudar a curar as feridas, para podermos impedir o avanço deste drama do nosso tempo» (AL 246). Referem-se de seguida as situações dos matrimônios mistos e daqueles com disparidade de culto, e a situação das famílias que têm dentro de si pessoas com tendência homossexual, insistindo no respeito para com elas e na recusa de qualquer discriminação injusta e de todas das formas de agressão e violência. A parte final do capítulo, «quando a morte crava o seu aguilhão», é de grande valor pastoral, tocando o tema da perda das pessoas queridas e da viuvez.
Capítulo sétimo: “Reforçar a educação dos filhos”
O sétimo capítulo é totalmente dedicado à educação dos filhos: a sua formação ética, o valor da sanção como estímulo, o realismo paciente, a educação sexual, a transmissão da fé e, mais em geral, a vida familiar como contexto educativo. É interessante a sabedoria prática que transparece em cada parágrafo e sobretudo a atenção à gradualidade e aos pequenos passos que «possam ser compreendidos, aceites e apreciados» (AL 271).
Há um parágrafo particularmente significativo e de um valor pedagógico fundamental em que Francisco afirma com clareza que «a obsessão (...) não é educativa; e também não é possível ter o controle de todas as situações onde um filho poderá chegar a encontrar-se (...). Se um progenitor está obcecado com saber onde está o seu filho e controlar todos os seus movimentos, procurará apenas dominar o seu espaço. Mas, desta forma, não o educará, não o reforçará, não o preparará para enfrentar os desafios. O que interessa acima de tudo é gerar no filho, com muito amor, processos de amadurecimento da sua liberdade, de preparação, de crescimento integral, de cultivo da autêntica autonomia» (AL 261).
A secção dedicada à educação sexual é notável, e intitula-se muito expressivamente: «Sim à educação sexual». Sustenta-se a sua necessidade e formula-se a interrogação de saber «se as nossas instituições educativas assumiram este desafio (…) num tempo em que se tende a banalizar e empobrecer a sexualidade». A educação sexual deve ser realizada«no contexto duma educação para o amor, para a doação mútua» (AL 280). É feita uma advertência em relação à expressão «sexo seguro», pois transmite«uma atitude negativa a respeito da finalidade procriadora natural da sexualidade, como se um possível filho fosse um inimigo de que é preciso proteger-se. Deste modo promove-se a agressividade narcisista, em vez do acolhimento» (AL 283).
Capítulo oitavo: “Acompanhar, discernir e integrar a fragilidade”
O capítulo oitavo representa um convite à misericórdia e ao discernimento pastoral diante de situações que não correspondem plenamente ao que o Senhor propõe. O Papa usa aqui três verbos muito importantes: «acompanhar, discernir e integrar», os quais são fundamentais para responder a situações de fragilidade, complexas ou irregulares. Em seguida, apresenta a necessária gradualidade na pastoral, a importância do discernimento, as normas e circunstâncias atenuantes no discernimento pastoral e, por fim, aquela que é por ele definida como a «lógica da misericórdia pastoral».
O oitavo capítulo é muito delicado. Na sua leitura deve recordar-se que «muitas vezes, o trabalho da Igreja é semelhante ao de um hospital de campanha» (AL 291). O Pontífice assume aqui aquilo que foi fruto da reflexão do Sínodo acerca de temáticas controversas. Reforça-se o que é o matrimônio cristão e acrescenta-se que «algumas formas de união contradizem radicalmente este ideal, enquanto outras o realizam pelo menos de forma parcial e analógica». Por conseguinte, «a Igreja não deixa de valorizar os elementos construtivos nas situações que ainda não correspondem ou já não correspondem à sua doutrina sobre o matrimônio» (AL 292).
No que respeita ao «discernimento» acerca das situações «irregulares», o Papa observa: «temos de evitar juízos que não tenham em conta a complexidade das diversas situações e é necessário estar atentos ao modo em que as pessoas vivem e sofrem por causa da sua condição» (AL 296). E continua: «Trata-se de integrar a todos, deve-se ajudar cada um a encontrar a sua própria maneira de participar na comunidade eclesial, para que se sinta objeto duma misericórdia “imerecida, incondicional e gratuita”»(AL 297). E ainda: «Os divorciados que vivem numa nova união, por exemplo, podem encontrar-se em situações muito diferentes, que não devem ser catalogadas ou encerradas em afirmações demasiado rígidas, sem deixar espaço para um adequado discernimento pessoal e pastoral» (AL 298).
Nesta linha, acolhendo as observações de muitos Padres sinodais , o Papa afirma que «os batizados que se divorciaram e voltaram a casar civilmente devem ser mais integrados na comunidade cristã sob as diferentes formas possíveis, evitando toda a ocasião de escândalo». «A sua participação pode exprimir-se em diferentes serviços eclesiais (…).Não devem sentir-se excomungados, mas podem viver e maturar como membros vivos da Igreja (…). Esta integração é necessária também para o cuidado e a educação cristã dos seus filhos» (AL 299).
Mais em geral, o Papa profere uma afirmação extremamente importante para que se compreenda a orientação e o sentido da Exortação: «Se se tiver em conta a variedade inumerável de situações concretas (…) é compreensível que se não devia esperar do Sínodo ou desta Exortação uma nova normativa geral de tipo canônico, aplicável a todos os casos. É possível apenas um novo encorajamento a um responsável discernimento pessoal e pastoral dos casos particulares, que deveria reconhecer: uma vez que “o grau de responsabilidade não é igual em todos os casos”, as consequências ou efeitos duma norma não devem necessariamente ser sempre os mesmos» (AL 300). O Papa desenvolve em profundidade as exigências e características do caminho de acompanhamento e discernimento em diálogo profundo entre fiéis e pastores. A este propósito, faz apelo à reflexão da Igreja «sobre os condicionamentos e as circunstâncias atenuantes» no que respeita à imputabilidade das ações e, apoiando-se em S. Tomás de Aquino, detém-se na relação entre «as normas e o discernimento», afirmando: «É verdade que as normas gerais apresentam um bem que nunca se deve ignorar nem transcurar, mas, na sua formulação, não podem abarcar absolutamente todas as situações particulares. Ao mesmo tempo é preciso afirmar que, precisamente por esta razão, aquilo que faz parte dum discernimento prático duma situação particular não pode ser elevado à categoria de norma» (AL 304).
Na última secção do capítulo, «A lógica da misericórdia pastoral», o Papa Francisco, para evitar equívocos, reafirma com vigor: «A compreensão pelas situações excecionais não implica jamais esconder a luz do ideal mais pleno, nem propor menos de quanto Jesus oferece ao ser humano. Hoje, mais importante do que uma pastoral dos falimentos é o esforço pastoral para consolidar os matrimônio se assim evitar as ruturas» (AL 307). Mas o sentido abrangente do capítulo e do espírito que o Papa Francisco pretende imprimir à pastoral da Igreja encontra um resumo adequado nas palavras finais: «Convido os fiéis, que vivem situações complexas, a aproximar-se com confiança para falar com os seus pastores ou com leigos que vivem entregues ao Senhor. Nem sempre encontrarão neles uma confirmação das próprias ideias ou desejos, mas seguramente receberão uma luz que lhes permita compreender melhor o que está a acontecer e poderão descobrir um caminho de amadurecimento pessoal. E convido os pastores a escutar, com carinho e serenidade, com o desejo sincero de entrar no coração do drama das pessoas e compreender o seu ponto de vista, para ajudá-las a viver melhor e reconhecer o seu lugar na Igreja» (AL 312). Acerca da «lógica da misericórdia pastoral», o Papa Francisco afirma com força: «Às vezes custa-nos muito dar lugar, na pastoral, ao amor incondicional de Deus. Pomos tantas condições à misericórdia que a esvaziamos de sentido concreto e real significado, e esta é a pior maneira de aguar o Evangelho» (AL 311).
Capítulo nono: “Espiritualidade conjugal e familiar”
O nono capítulo é dedicado à espiritualidade conjugal e familiar, «feita de milhares de gestos reais e concretos» (AL 315). Diz-se com clareza que «aqueles que têm desejos espirituais profundos não devem sentir que a família os afasta do crescimento na vida do Espírito, mas é um percurso de que o Senhor Se serve para os levar às alturas da união mística» (AL 316). Tudo, «os momentos de alegria, o descanso ou a festa, e mesmo a sexualidade são sentidos como uma participação na vida plena da sua Ressurreição» (AL 317). Fala-se de seguida da oração à luz da Páscoa, da espiritualidade do amor exclusivo e livre diante do desafio e do desejo de envelhecer e gastar-se juntos, refletindo a fidelidade de Deus (cf. AL 319). E, por fim, a espiritualidade «da solicitude, da consolação e do estímulo». «Toda a vida da família é um “pastoreio” misericordioso. Cada um, cuidadosamente, desenha e escreve na vida do outro» (AL 322), escreve o Papa. «É uma experiência espiritual profunda contemplar cada ente querido com os olhos de Deus e reconhecer Cristo nele» (AL 323).
No parágrafo conclusivo,o Papa afirma: «Nenhuma família é uma realidade perfeita e confeccionada duma vez para sempre, mas requer um progressivo amadurecimento da sua capacidade de amar. (…). Todos somos chamados a manter viva a tensão para algo mais além de nós mesmos e dos nossos limites, e cada família deve viver neste estímulo constante. Avancemos, famílias; continuemos a caminhar! (…). Não percamos a esperança por causa dos nossos limites, mas também não renunciemos a procurar a plenitude de amor e comunhão que nos foi prometida» (AL 325).
A Exortação apostólica conclui-se com uma Oração à Sagrada Família (AL 325).
                                                             *  *  *
Como já se pode depreender a partir de um rápido exame dos seus conteúdos, a Exortação apostólica Amoris laetitia pretende reafirmar com força não o «ideal» da família, mas a sua realidade rica e complexa. Há nas suas páginas um olhar aberto, profundamente positivo, que se nutre não de abstrações ou projeções ideais, mas de uma atenção pastoral à realidade. O documento é uma leitura densa de motivos espirituais e de sabedoria prática útil a cada casal ou a pessoas que desejam construir uma família. Nota-se sobretudo que foi fruto de uma experiência concreta com pessoas que sabem a partir da experiência o que é a família e o viver juntos durante muitos anos. A Exortação fala de fato a linguagem da experiência e da esperança.

Um pedaço de pão molhado ao molho

Você já reparou que, misteriosamente, o ser humano responde com ingratidão e indiferença o bem que lhe é feito?

Filhos que valorizam os ídolos mas nao respeitam os seus pais. Pessoas que abusam quem lhe fez um empréstimo na hora da dificuldade. Indiferença nos tempos de bonança para com quem fez caridade nos tempos de escassez. É lamentável, mas isto acontece não poucas vezes.

E isto aconteceu também com Jesus. Ele, que nunca cometeu pecado algum, sofreu em si todas as contrariedades da naturza humana decaída. No Evangelho (Jo 13,21ss) vemos Jesus sendo traído por ninguém menos que Judas Iscariotes, aquele que Ele tirou do anonimato e colocou no seu círculo de amigos.

Judas representa o mistério do mal presente no mundo e na espécie humana. É um mistério porque não compreendemos porque o mal acontece, mas o experimentamos no dia a dia e quanto mais o experimentamos, mas sentimos a sua crueldade.

No Evangelho, ao vislumbrar a hora da traição do "amigo", Jesus entrega a Judas um pedaço de pão molhado no molho. Enquanto o beijo de Judas será o sinal da falsidade, este gesto de cortesia de Jesus revela o seu amor, ternura e sinceridade.

Àquele que lhe trairá, Jesus serve um pedaço de pão molhado no molho. Isto significa que, não veio para ser servido, mas para servir e que, tendo amado os seus, amou-os até o fim, inclusive Judas Iscariotes, o falso, o hipócrita, o picador não arrependido.

O mistério do mal existe e é atuante. Judas demonstra esta triste realidade. Mas Jesus paga o mal com o bem, porque só vence o mal. O amor não é interesseiro, é paciente e visa sempre o bem do outro. (1Cor 13)

Jesus oferecerá a sua vida na Cruz do Calvário. O mal, o ódio e Satanás serão vencidos e o pecado do homem, redimido. No terceiro dia, Jesus ressuscitará, o bem vencerá, o amor triunfará.

No hoje da nossa história somos chamados a unir o nosso sofrimento por amor ao sofrimento redentor de Cristo, pela Igreja, pela humanidade. (Col 1,24)

Quando formos contrariados, perseguidos e injustiçados. Quando recebermos ingratidão e humilhação, lembremo-nos de Jesus Crucificado. Não paguemos o mal com o mal. Nem adentremos na vingança, porque a vingança não cura e nem redime, ela apenas perpetua o mal.

Possamos servir com delicadeza e sinceridade um pedaco de pão molhado ao molho, pão do perdão, paciencia e misericórdia a quem nos trair e perseguir com ingratidão, falsidade e hipocrisia. O amor sempre vence o mal.

Jesus nos dá o grande exemplo a seguir.

O mal existe e é atuante, mas o amor que nos faz fazer o bem é o único que o vence e redime a natureza humana decaída.

O que seria do mundo se não existissem aqueles que insistem em servir um pedaço de pão molhado ao molho a quem é obreiro da maldade.

Em Cristo Jesus,


Pe. Marcos Oliveira, djc

Secularismo e relativismo: vigilancia


Semana Santa Rádio DJC Brasil


Temos a graça da fé católica, que significa fé correta e completa, resumida no Credo e totalmente enraizada na Palavra de Deus, assim como Jesus ensinou aos Apóstolos e foi transmitida de geração em geração, até chegar até nós.

Semana Santa é tempo de vigilância contra a tentação do secularismo e relativismo, duas mentalidades subjacentes ao mundo de hoje e que, quando menos esperamos, nem pensamos, e já estamos na onda.

O secularismo nos faz ter vergonha de Jesus no meio da sociedade e empurra o nosso ser cristão para dentro de casa, para o foro privado.

Na escola, no trabalho e no lazer, no dia a dia, somos tentados a esconder o que somos, a não usar uma cruz ou uma bíblia, por exemplo, a não darmos testemunho do evangelho.

Mas Jesus diz que quem se envergonha dele diante dos homens, Ele também se envergonhará destes diante do Pai Celeste.

Na tentação do relativismo, que o grande Bento XVI chama tão bem de ditadura do relativismo, não existe verdade absoluta e nem mesmo um princípio ético universal.

O que vigora é o sentimentalismo e o achismo, e não a Verdade e o Amor que libertam.

No plano religioso, o relativismo relativiza, obviamente, Jesus e a sua Igreja. Dizem que Jesus é um Deus entre outros deuses, mas no final toda religião é a mesma coisa.

Ou que tanto faz a Igreja Católica como aquela que fulano, no seu achismo, achou por bem inventar uma nova doutrina e fundar uma nova igreja, a seu bel prazer. E as seitas pululam por aí, espalhando erros e heresias pelo mundo afora.

Na verdade, não existe outro Nome pelo qual sejamos salvos a não ser o Nome de Jesus.

E no que se refere à sua Igreja, Jesus foi muito claro quando disse: "Pedro, tu és pedra - a tua fé professada corretamente é uma pedra - e sobre esta pedra eu fundarei a minha Igreja".

Aqui não cabe achismos ou invencionices, como aquela mulher dá da esquina da minha rua que parou a lanchonete e começou um novo negócio, a sua própria igreja.

O secularismo faz você ter vergonha de ser cristão. O relativismo lhe escraviza no seu achismo e não deixa você viver e caminhar na Verdade de Jesus e na Igreja que Ele fundou. 

São duas mentalidades diabólicas subjacentes no mundo de hoje porque, se você não orar e vigiar, elas lhe afastam da Verdade e do Amor, e empurram para a mentira e a morte.

Que nesta Semana Santa combatamos dentro de nós toda forca negativa do secularismo e do relativismo.

Em Jesus e Maria,

Pe. Marcos Oliveira
Acompanhante Geral do DJC

A justificação pela fé: "Deixemo-nos moldar por Cristo". Entrevista com Bento XVI

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A justificação pela fé: "Deixemo-nos moldar por Cristo". Entrevista com Bento XVI

Publicamos o texto integral da entrevista comBento XVI contida no livro Per mezzo della fede. Dottrina della giustificazione ed esperienza di Dio nella predicazione della Chiesa e negli Esercizi Spirituali [Por meio da fé. Doutrina da justificação e experiência de Deus na pregação da Igreja e nos Exercícios Espirituais], editado pelo jesuítaDaniel Libanori (Cinisello Balsamo: Edizioni San Paolo, 2016, 208 páginas), no qual opapa emérito fala da centralidade da misericórdia na fé cristã.
O volume reúne as atas de um congresso que ocorreu em outubro passado em Roma. Como escreve Filippo Rizzi no jornalAvvenire dessa quarta-feira, o autor da entrevista (cujo nome não está presente no livro) é o jesuíta Jacques Servais, aluno de Hans Urs von Balthasar e estudioso da sua obra.
A íntegra da conversa foi publicada pelo jornal L'Osservatore Romano, 16-04-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis a entrevista.
Santidade, a questão posta este ano no quadro das jornadas de estudo (8-10 de outubro de 2015) promovidas pela Reitoria do Gesù, em Roma, é a da justificação pela fé. O último volume da sua Opera omnia (GS IV) evidencia a sua afirmação resoluta: "A fé cristã não é uma ideia, mas uma vida". Comentando a célebre afirmação paulina (Rm 3, 28), o senhor falou, a esse respeito, de uma dupla transcendência: "A fé é um dom aos crentes comunicado através da Comunidade, que, de sua parte, é fruto do dom de Deus" ("Glaube ist Gabe durch die Gemeinschaft, die sich selbst gegeben wird", GS TV; 512). Poderia explicar o que o senhor quis dizer com essa afirmação, levando em conta, naturalmente, o fato de que o objetivo dessas jornadas é esclarecer a teologia pastoral e vivificar a experiência espiritual dos fiéis?
Trata-se da questão: o que é a fé e como se chega a crer. Por um lado, a fé é um contato profundamente pessoal com Deus, que me toca no meu tecido mais íntimo e me coloca diante do Deus vivo, em absoluta imediaticidade, isto é, de modo que eu possa falar com Ele, amá-Lo e entrar em comunhão com Ele. Mas, ao mesmo tempo, essa realidade maximamente pessoal tem a ver inseparavelmente com a comunidade: faz parte da essência da fé o fato de me introduzir no nós dos filhos de Deus, na comunidade peregrina dos irmãos e das irmãs. A fé deriva da escuta (fides ex auditu), ensina-nos São Paulo.
A escuta, por sua vez, implica sempre um parceiro. A fé não é um produto da reflexão nem uma busca de penetrar nas profundezas do meu ser. Ambas as coisas podem estar presentes, mas elas continuam sendo insuficientes sem a escuta mediante a qual Deus, de fora, a partir de uma história por Ele mesmo criada, me interpela. Para que eu possa crer, eu preciso de testemunhas que encontraram Deus e O tornam acessível para mim.
No meu artigo sobre o batismo, eu falei da dupla transcendência da comunidade, fazendo, assim, emergir, uma vez mais, um elemento importante: a comunidade de fé não se cria por si só. Ela não é uma assembleia de homens que têm ideias em comum e que decidem operar pela difusão de tais ideias. Então, tudo estaria baseado em uma decisão própria e, em última análise, no princípio da maioria, isto é, no fim das contas, seria opinião humana. Uma Igreja assim construída não pode ser, para mim, garantia da vida eterna, nem exigir de mim decisões que me fazem sofrer e que estão em contraste com os meus desejos. Não, a Igreja não foi feita por si mesma, foi criada por Deus e é continuamente formada por Ele. Isso encontra a sua expressão nos sacramentos, sobretudo no do batismo: eu entro na Igreja não com um ato burocrático, mas mediante o sacramento. E isso equivale a dizer que eu sou acolhido em uma comunidade que não se originou de si mesma e que se projeta para além de si mesma.
A pastoral que pretende formar a experiência espiritual dos fiéis deve proceder a partir desses dados fundamentais. É necessário que ela abandone a ideia de uma Igreja que produz a si mesma e é necessário enfatizar que a Igreja se torna comunidade na comunhão do corpo de Cristo. Ela deve introduzir ao encontro com Jesus Cristo e levar à Sua presença no sacramento.
Quando o senhor era prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, comentando a Declaração Conjunta da Igreja Católica e da Federação Luterana Mundial sobre a doutrina da justificação do dia 31 de outubro de 1999, o senhor evidenciou uma diferença de mentalidade em relação a Lutero e à questão da salvação e da bem-aventurança da forma como ele a colocava. A experiência religiosa de Lutero era dominada pelo terror diante da cólera de Deus, sentimento bastante estranho ao homem moderno, marcado mais pela ausência de Deus (basta reler o seu artigo escrito para a revista Communio no ano 2000). A doutrina de Paulo da justificação pela fé, nesse novo contexto, pode chegar à experiência "religiosa" ou, ao menos, à experiência "elementar" dos nossos contemporâneos?
Acima de tudo, quero sublinhar mais uma vez o que eu escrevia na Communio no ano 2000, sobre a problemática da justificação. Para o homem de hoje, em relação ao tempo de Lutero e à perspectiva clássica da fé cristã, as coisas, em certo sentido, se inverteram, ou seja, não é mais o homem que crê precisar da justificação em relação a Deus, mas ele é do parecer de que Deus é que deve se justificar por causa de todas as coisas horrendas presentes no mundo e diante da miséria do ser humano, todas coisas que, em última instância, dependeriam d'Ele.
A esse propósito, acho indicativo o fato de que um teólogo católico assuma de modo até mesmo direto e formal tal inversão: Cristo não teria sofrido pelos pecados dos homens, mas, ao contrário, por assim dizer, teria apagado as culpas de Deus. Mesmo que, por enquanto, a maior parte dos cristãos não compartilha uma inversão tão drástica da nossa fé, pode-se dizer que tudo isso faz emergir uma tendência de fundo do nosso tempo.
Quando Johann Baptist Metz defende que a teologia hoje deve ser "sensível à teodiceia" (theodizeeempfindlich), isso ressalta o mesmo problema de modo positivo. Mesmo prescindindo de uma contestação tão radical da visão eclesial sobre a relação entre Deus e o homem, o homem de hoje, de modo totalmente geral, tem a sensação de que Deus não pode deixar a maior parte da humanidade ir à perdição. Nesse sentido, a preocupação com a salvação típica de antigamente quase desapareceu.
No entanto, a meu ver, continua existindo, de outro modo, a percepção de que nós precisamos da graça e do perdão. Para mim, é um "sinal dos tempos" o fato de que a ideia da misericórdia de Deus se torne cada vez mais central e dominante – a partir da Ir. Faustina, cujas visões, de vários modos, refletem profundamente a imagem de Deus própria do homem de hoje e o seu desejo da bondade divina. O Papa João Paulo II estava profundamente impregnado por esse impulso, embora isso nem sempre emergisse de modo explícito.
Mas certamente não é por acaso que o seu último livro, que viu a luz imediatamente antes da sua morte, fala da misericórdia de Deus. A partir das experiências nas quais, desde os primeiros anos de vida, ele chegou a constatar toda a crueldade dos homens, ele afirma que a misericórdia é a única verdadeira e última reação eficaz contra a potência do mal.
Só onde há misericórdia acaba a crueldade, acabam o mal e a violência. O Papa Francisco encontra-se totalmente de acordo com essa linha. A sua prática pastoral se expressa justamente no fato de que ele nos fala continuamente da misericórdia de Deus. É a misericórdia aquilo que nos move em direção a Deus, enquanto a justiça nos assusta em relação a Ele. A meu ver, isso ressalta que, sob o verniz da segurança de si e da própria justiça, o homem de hoje esconde um profundo conhecimento das suas feridas e da sua indignidade diante de Deus. Ele está à espera da misericórdia.
Certamente, não é por acaso que a parábola do bom samaritano seja particularmente atraente para os contemporâneos. E não só porque nela está fortemente sublinhado o componente social da existência cristã, nem só porque nela o samaritano, o homem não religioso, em relação aos representantes da religião, aparece, por assim dizer, como aquele que age de modo verdadeiramente conforme a Deus, enquanto os representantes oficiais da religião se tornaram, por assim dizer, imunes em relação a Deus.
É claro que isso agrada ao homem moderno. Mas me parece igualmente importante, no entanto, que os homens, no seu íntimo, esperem que o samaritano venha em sua ajuda, que ele se curve sobre eles, derrame óleo sobre as suas feridas, cuide deles e os proteja. Em última análise, eles sabem que precisam da misericórdia de Deus e da sua delicadeza.
Na dureza do mundo tecnicizado em que os sentimentos não importam mais nada, aumenta, porém, a expectativa de um amor salvífico que seja dado gratuitamente. Parece-me que, no tema da misericórdia divina, expressa-se de modo novo aquilo que significa a justificação pela fé. A partir da misericórdia de Deus, que todos buscam, é possível também hoje interpretar, desde o início, o núcleo fundamental da doutrina da justificação e fazer com que ele apareça em toda a sua relevância.
Quando Anselmo diz que o Cristo devia morrer na cruz para reparar a ofensa infinita que tinha sido feita a Deus e, assim, restaurar a ordem quebrada, ele usa uma linguagem dificilmente aceitável pelo homem moderno (cfr. GS IV 215.ss). Expressando-se desse modo, corre-se o risco de projetar sobre Deus uma imagem de um Deus de cólera, aferrado diante do pecado do homem, por [um estado afetivo] sentimentos de violência e de agressividade comparáveis àquilo que nós mesmos podemos experimentar. Como é possível falar da justiça de Deus sem correr o risco de minar a certeza, já consolidada junto aos fiéis, de que [o Deus] dos cristãos é um Deus "rico em misericórdia" (Ef 2, 4)?
A conceitualidade de Santo Anselmo se tornou hoje, para nós, certamente incompreensível. É nossa tarefa tentar entender de modo novo a verdade que se esconde por trás desse modo de se expressar. De minha parte, formulo três pontos de vista sobre esse ponto:
a) A contraposição entre o Pai, que insiste de modo absoluto na justiça, e o Filho que obedece ao Pai e, obedecendo, aceita a cruel exigência da justiça, não é apenas incompreensível hoje, mas, a partir da teologia trinitária, é, em si mesma, totalmente errada. O Pai e o Filho são uma coisa só, e, portanto, a Sua vontade é ab intrinseco uma só. Quando o Filho, no Jardim das Oliveiras, luta com a vontade do Pai, não se trata do fato de que ele deva aceitar para si uma cruel disposição de Deus, mas sim do fato de atrair a humanidade para dentro da vontade de Deus. Deveremos voltar ainda, em seguida, sobre a relação das duas vontades do Pai e do Filho.
b) Mas, então, por que a cruz e a expiação? De algum modo, hoje, nas contorções do pensamento moderno de que falamos acima, a resposta a tais perguntas pode ser formulada de um modo novo. Coloquemo-nos diante da incrível quantidade suja de mal, de violência, de mentira, de ódio, de crueldade e de soberba que infectam e arruínam o mundo inteiro. Essa massa de mal não pode ser simplesmente declarada como inexistente, nem mesmo por parte de Deus. Ela deve ser depurada, reelaborada e superada. O antigo Israel estava convencido de que o sacrifício cotidiano pelos pecados e, sobretudo, a grande liturgia do Dia da Expiação (Yom-Kippur) eram necessários como contrapeso para a massa de mal presente no mundo e que só mediante tal reequilíbrio o mundo poderia, por assim dizer, continuar suportável. Assim que desapareceram os sacrifícios no templo, foi necessário perguntar o que podia ser contraposto às potências superiores do mal, como encontrar, de algum modo, um contrapeso. Os cristãos sabiam que o templo destruído havia sido substituído pelo corpo ressuscitado do Senhor crucificado e que, no Seu amor radical e incomensurável, havia sido criado um contrapeso à incomensurável presença do mal. Ou, melhor, eles sabiam que as ofertas apresentadas até então só podiam ser concebidas como gesto de desejo de um real contrapeso. Eles também sabiam que, diante do excessivo poder do mal, só um amor infinito podia bastar, só uma expiação infinita. Eles sabiam que o Cristo crucificado e ressuscitado é um poder que pode combater o do mal e que salva o mundo. E, sobre essas bases, também puderam entender o sentido dos seus próprios sofrimentos como inseridas no amor sofredor de Cristo e como parte da potência redentora de tal amor. Acima, eu citava aquele teólogo para o qual Deus teve que sofrer pelas Suas culpas em relação ao mundo; ora, dada essa inversão da perspectiva, emerge a seguinte verdade: Deus simplesmente não pode deixar como está a massa do mal que deriva da liberdade que Ele mesmo concedeu. Só Ele, vindo a fazer parte do sofrimento do mundo, pode redimir o mundo.
c) Sobre essas bases, torna-se mais perspícua a relação entre o Pai e o Filho. Reproduzo, sobre o assunto, uma passagem tirada do livro de De Lubac sobre Orígenes, que me parece muito claro: "O Redentor entrou no mundo por compaixão pelo gênero humano. Ele tomou sobre Si as nossas passiones antes ainda de ser crucificado, ou, melhor, até mesmo antes de se abaixar para assumir a nossa carne: se não as tivesse provado antes Ele não teria vindo tomar parte da nossa vida humana. Mas qual foi esse sofrimento que Ele suportou com antecedência por nós? Foi a paixão do amor. Mas o Pai mesmo, o Deus do universo, Ele que é superabundante de longanimidade, paciência, misericórdia e compaixão, não sofre, também Ele, em certo sentido? 'O Senhor, teu Deus, de fato, tomou sobre si os teus costumes como aquele que toma sobre si o seu filho' (Deuteronômio 1, 31). Deus, portanto, toma sobre si os nossos costumes como o Filho de Deus toma sobre si os nossos sofrimentos. O próprio Pai não é sem paixão! Se Ele é invocado, então Ele conhece misericórdia e compaixão. Ele percebe um sofrimento de amor (Homilias sobre Ezequiel 6, 6)".
Em algumas regiões da Alemanha, houve uma devoção muito comovente que contemplava die Not Gottes ("a indigência de Deus"). De minha parte, isso me faz passar diante dos meus olhos uma imagem impressionante que representa o Pai sofredor, que, como Pai, compartilha interiormente os sofrimentos do Filho. E também a imagem do "trono de graça" faz parte dessa devoção: o Pai sustenta a cruz e o crucificado, inclina-se amorosamente sobre ele e, por outro lado, por assim dizer, está junto sobre a cruz. Assim, de modo grandioso e puro, percebe-se ali o ue significam a misericórdia de Deus e a participação de Deus ao sofrimento do homem. Não se trata de uma justiça cruel, não já do fanatismo do Pai, mas sim da verdade e da realidade da criação: da verdadeira íntima superação do mal que, em última análise, pode se realizar apenas no sofrimento do amor.
Nos Exercícios Espirituais, Inácio de Loyola não utiliza as imagens vetero-testamentárias da vingança, ao contrário de Paulo (como se percebe na segunda carta aos Tessalonicenses). No entanto, ele convida a contemplar como os homens, até a Encarnação, "desciam ao inferno" e a considerar o exemplo dos "inúmeros outros que lá acabaram por muito menos pecados do que aqueles que eu cometi". É nesse espírito que São Francisco Xavier viveu a sua própria atividade pastoral, convencido de ter que tentar salvar do terrível destino da perdição eterna o máximo de "infiéis" possível. Pode-se dizer que, nesse ponto, nas últimas décadas, houve uma espécie de "desenvolvimento do dogma", que o Catecismo absolutamente deve levar em conta?
Não há dúvida de que, nesse ponto, estamos diante de uma profunda evolução do dogma. Enquanto os Padres e os teólogos da Idade Média ainda podiam ser da opinião de que, na substância, todo o gênero humano havia se tornado católico e que o paganismo existia quase apenas nas margens, a descoberta do Novo Mundo, no início da era moderna, mudou de maneira radical as perspectivas.
Na segunda metade do século passado, afirmou-se completamente a consciência de que Deus não pode deixar todos os não batizados irem para a perdição e que mesmo uma felicidade puramente natural para eles não representa uma resposta real para a questão da existência humana.
Se é verdade que os grandes missionários do século XVI ainda estavam convencidos de que aqueles que não eram batizados estavam perdidos para sempre, e isso explica o seu empenho missionário, na Igreja Católica depois doConcílio Vaticano II, tal convicção foi definitivamente abandonada. Disso derivou uma dupla e profunda crise. Por um lado, isso parece remover toda motivação a um futuro empenho missionário. Por que se deveria tentar convencer as pessoas a aceitarem a fé cristã quando elas podem se salvar mesmo sem ela? Mas para os cristãos também emergiu uma questão: tornou-se incerta e problemática a obrigatoriedade da fé e da sua forma de vida.
Se há quem pode se salvar mesmo de outras maneiras, não é mais evidente, no fim das contas, por que o próprio cristão está ligado às exigências da fé cristã e à sua moral. Mas se fé e salvação não são mais interdependentes, mesmo a fé se torna imotivada. Nos últimos tempos, foram formuladas diversas tentativas com o objetivo de conciliar a necessidade universal da fé cristã com a possibilidade de se salvar sem ela.
Recordo aqui duas delas: acima de tudo, a tese bem conhecida dos cristãos anônimos de Karl Rahner. Nela, defende-se que o ato-base essencial da existência cristã, que é decisivo em ordem à salvação, na estrutura transcendental da nossa consciência, consiste na abertura ao totalmente outro, em direção à unidade com Deus. A fé cristã teria feito emergir à consciência aquilo que é estrutural no homem como tal. Por isso, quando o homem se aceita no seu ser essencial, ele cumpre o essencial do ser cristão, mesmo sem conhecê-lo de modo conceitual.
O cristão, portanto, coincide com o humano e, nesse sentido, é cristão todo homem que aceita a si mesmo, mesmo que não saiba disso. É verdade que essa teoria é fascinante, mas reduz o próprio cristianismo a uma pura apresentação consciente daquilo que o ser humano é em si e, portanto, ignora o drama da mudança e da renovação que é central no cristianismo.
Ainda menos aceitável é a solução proposta pelas teorias pluralistas da religião, para as quais todas as religiões, cada um ao seu modo, seriam vias de salvação e, nesse sentido, nos seus efeitos, devem ser consideradas como equivalentes. A crítica da religião do tipo daquela exercida pelo Antigo Testamento, pelo Novo Testamento e pela Igreja primitiva é essencialmente mais realista, mais concreta e mais verdadeira no seu exame das várias religiões. Uma recepção tão simplista não é proporcional à grandeza da problemática.
Lembremos, por último, especialmente Henri de Lubac e, com ele, alguns outros teólogos que fizeram força sobre o conceito de substituição vicária. Para eles, a preexistência de Cristo seria expressão da figura fundamental da existência cristã e da Igreja como tal. É verdade que, assim, o problema não está totalmente resolvido, mas me parece que essa, na realidade, é a intuição essencial que, assim, toca a existência do indivíduo cristão.
Cristo, como único, era e é para todos os cristãos, que, na grandiosa imagem de Paulo, constituem o Seu corpo neste mundo, participam de tal ser-para [essere-per]. Não somos cristãos, por assim dizer, para nós mesmo, mas sim, comCristo, para os outros. Isso não significa uma espécie de bilhete especial para entrar na bem-aventurança eterna, mas sim a vocação para construir o conjunto, o todo.
Aquilo de que a pessoa humana precisa em ordem à salvação é a íntima abertura em relação a Deus, a íntima expectativa e adesão a Ele, e isso significa, vice-versa, que nós, junto com o Senhor que encontramos, vamos rumo aos outros e tentamos tornar visível a eles o advento de Deus em Cristo.
É possível explicar esse "ser para" também de um modo um pouco mais abstrato. É importante para a humanidade que, nela, haja verdade, que ela seja acreditada e praticada. Que se sofra por ela. Que se ame. Essas realidades penetram com a sua luz dentro do mundo como tal e o sustentam. Eu acho que, nesta presente situação, se torna para nós cada vez mais claro e compreensível aquilo que o Senhor diz a Abraão, isto é, que dez justos teriam sido suficientes para fazer sobreviver uma cidade, mas que ela destrói a si mesma se esse pequeno número não é alcançado. É claro que devemos refletir mais sobre toda a questão.
Aos olhos de muitos "laicos", marcados pelo ateísmo dos séculos XIX e XX, o senhor notou, é mais Deus – se é que existe – e não o homem que deveria responder pelas injustiças, pelo sofrimento dos inocentes, pelo cinismo do poder a que estamos assistindo, impotentes, no mundo e na história universal (ver Spe salvi, n. 42)... No seu livro Jesus de Nazaré, o senhor ecoa aquilo que, para eles – e para nós –, é um escândalo: "A realidade da injustiça, do mal, não pode ser simplesmente ignorada, simplesmente posta de lado. Ela deve absolutamente ser superada e vencida. Só assim há verdadeiramente misericórdia" (Jesus de Nazaré, p. 153, citando 2Timóteo 2, 13). O sacramento da confissão é, e em que maneira, um dos lugares nos quais pode ocorrer uma "reparação" do mal cometido?
Eu já tentei expor no seu conjunto os pontos fundamentais relativos a esse problema ao responder a terceira questão. O contrapeso ao domínio do mal só pode consistir, em primeiro lugar, no amor divino-humano de Jesus Cristo que é sempre maior do que toda possível potência do mal. Mas é necessário que nós nos insiramos nessa resposta que Deus nos dá mediante Jesus Cristo. Mesmo que o indivíduo seja responsável por um fragmento de mal e, portanto, seja cúmplice do seu poder, junto com Cristo, ele pode, no entanto, "completar o que ainda falta aos seus sofrimentos" (cfr. Colossenses 1, 24).
O sacramento da penitência, nesse campo, certamente tem um papel importante. Isso significa que nós nos deixamos sempre moldar e transformar por Cristo e que passamos continuamente do lado de quem destrói para o de quem salva.