III Segunda-feira
Laudes
V. Vinde, ó Deus em meu auxílio.
R. Socorrei-me sem demora.
Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo.
Como era no princípio, agora e sempre. Amém. Aleluia. 

Hino
Clarão da glória do Pai,
ó Luz, que a Luz origina,
sois Luz da Luz, fonte viva,
sois Luz que ao dia ilumina.
Brilhai, ó Sol verdadeiro,
com vosso imenso esplendor,
e dentro em nós derramai
do Santo Espírito o fulgor.
Também ao Pai suplicamos,
ao Pai a glória imortal,
ao Pai da graça potente,
que a nós preserve do mal.
Na luta fortes nos guarde
vencendo o anjo inimigo.
Nas quedas, dê-nos a graça,
de nós afaste o perigo.
As nossas mentes governe
num corpo casto e sadio.
A nossa fé seja ardente,
e não conheça desvio.
O nosso pão seja o Cristo,
e a fé nos seja a bebida.
O Santo Espírito bebamos
nas fontes puras da vida.
Alegre passe este dia,
tão puro quanto o arrebol.
A fé, qual luz cintilante,
refulja em nós como o sol.
A aurora em si traz o dia.
Vós, como aurora, brilhai:
ó Pai, vós todo no Filho,
e vós, ó Verbo, no Pai.
Salmodia
Ant. 1 
Felizes os que habitam vossa casa, ó Senhor!
Salmo 83(84) 
Saudades do templo do Senhor
Não temos aqui cidade permanente, mas estamos à procura daquela que está para vir(Hb 13,14).
Quão amável, ó Senhor, é vossa casa, *
quanto a amo, Senhor Deus do universo!
3 Minha alma desfalece de saudades *
e anseia pelos átrios do Senhor!
– Meu coração e minha carne rejubilam *
e exultam de alegria no Deus vivo!

=Mesmo o pardal encontra abrigo em vossa casa, †
e a andorinha ali prepara o seu ninho, *
para nele seus filhotes colocar:
– vossos altares, ó Senhor Deus do universo! *
vossos altares, ó meu Rei e meu Senhor!

Felizes os que habitam vossa casa; *
para sempre haverão de vos louvar!
6 Felizes os que em vós têm sua força, *
e se decidem a partir quais peregrinos!

=7 Quando passam pelo vale da aridez, †
o transformam numa fonte borbulhante, *
pois a chuva o vestirá com suas bênçãos.
Caminharão com um ardor sempre crescente *
e hão de ver o Deus dos deuses em Sião.

Deus do universo, escutai minha oração! *
Inclinai, Deus de Jacó, o vosso ouvido!
10 Olhai, ó Deus, que sois a nossa proteção, *
vede a face do eleito, vosso Ungido!

11 Na verdade, um só dia em vosso templo *
vale mais do que milhares fora dele!
– Prefiro estar no limiar de vossa casa, *
a hospedar-me na mansão dos pecadores!
12 O Senhor Deus é como um sol, é um escudo, *
e largamente distribui a graça e a glória.
– O Senhor nunca recusa bem algum *
àqueles que caminham na justiça.

13 Ó Senhor, Deus poderoso do universo, *
feliz quem põe em vós sua esperança!
– Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo. *
Como era no princípio, agora e sempre. Amém.
Ant. Felizes os que habitam vossa casa, ó Senhor!
Ant. 2 Vinde, subamos a montanha do Senhor!
Cântico Is 2,2-5 
A montanha da casa do Senhor
é mais alta do que todas as montanhas
Todas as nações virão prostrar-se diante de Ti (Ap 15,4). Eis que vai acontecer no fim dos tempos, *
que o monte onde está a casa do Senhor
– será erguido muito acima de outros montes, *
e elevado bem mais alto que as colinas.

– Para ele a correrão todas as gentes, *
3 muitos povos chegarão ali dizendo:
– 'Vinde, subamos a montanha do Senhor, *
vamos à casa do Senhor Deus de Israel,
– para que ele nos ensine seus caminhos, *
e trilhemos todos nós suas veredas.
– Pois de Sião a sua Lei há de sair, *
Jerusalém espalhará sua Palavra'.

Será ele o Juiz entre as nações *
e o árbitro de povos numerosos.
– Das espadas farão relhas de arado *
e das lanças forjarão as suas foices.

– Uma nação não se armará mais contra a outra, *
nem haverão de exercitar-se para a guerra.
5 Vinde, ó casa de Jacó, vinde, achegai-vos, *
caminhemos sob a luz do nosso Deus!
– Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo. *
Como era no princípio, agora e sempre. Amém.
Ant. Vinde, subamos a montanha do Senhor! Ant. 3 Cantai ao Senhor Deus, bendizei seu santo nome!
Salmo 95(96) 
Deus, Rei e Juiz de toda a terra
Cantavam um cântico novo diante do trono, na presença do Cordeiro (cf. Ap 14,3).=Cantai ao Senhor Deus um canto novo, †
2 cantai ao Senhor Deus,ó terra inteira! *
Cantai e bendizei seu santo nome!

= Dia após dia anunciai sua salvação, †
3 manifestai a sua glória entre as nações, *
e entre os povos do universo seus prodígios!

=4 Pois Deus é grande e muito digno de louvor, †
é mais terrível e maior que os outros deuses, *
5 porque um nada são os deuses dos pagãos.

= Foi o Senhor e nosso Deus quem fez os céus: †
6 diante dele vão a glória e a majestade, *
e o seu templo, que beleza e esplendor!

=7 Ó família das nações, dai ao Senhor, †
ó nações, dai ao Senhor poder e glória, *
8 dai-lhe a glória que é devida ao seu nome! –

= Oferecei um sacrifício nos seus átrios, †
9 adorai-o no esplendor da santidade, *
terra inteira, estremecei diante dele!

=10 Publicai entre as nações: 'Reina o Senhor!' †
Ele firmou o universo inabalável, *
e os povos ele julga com justiça.
1 1O céu se rejubile e exulte a terra, *
aplauda o mar com o que vive em suas águas;
12 os campos com seus frutos rejubilem*
e exultem as florestas e as matas

13 na presença do Senhor, pois ele vem, *
porque vem para julgar a terra inteira.
– Governará o mundo todo com justiça, *
e os povos julgará com lealdade.
– Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo. *
Como era no princípio, agora e sempre. Amém.
Ant. Cantai ao Senhor Deus, bendizei seu santo nome!
Leitura breve             Tg 2,12-13 Falai e procedei como pessoas que vão ser julgadas pela Lei da liberdade. Pensai bem: O juízo vai ser sem misericórdia para quem não praticou misericórdia; a misericórdia, porém, triunfa do juízo.
Responsório breve
R.
 O Senhor seja bendito, * Bendito seja eternamente! R. O Senhor. V. Só o Senhor faz maravilhas. Bendito seja.
Glória ao Pai. 
R. O Senhor.
Cântico evangélico: Benedictus Lc 1,68-79
Ant. Bendito seja o Senhor nosso Deus!
O Messias e seu Precursor
68 Bendito seja o Senhor Deus de Israel, *
porque a seu povo visitou e libertou;
69 e fez surgir um poderoso Salvador *
na casa de Davi, seu servidor,

70 como falara pela boca de seus santos, *
os profetas desde os tempos mais antigos,
71 para salvar-nos do poder dos inimigos *
e da mão de todos quantos nos odeiam.

72 Assim mostrou misericórdia a nossos pais, *
recordando a sua santa Aliança
73 e o juramento a Abraão, o nosso pai, *
de conceder-nos 
74 que, libertos do inimigo,
= a ele nós sirvamos sem temor † 
75 em santidade e em justiça diante dele, *
enquanto perdurarem nossos dias.

=
76 Serás profeta do Altíssimo, ó menino, †
pois irás andando à frente do Senhor *
para aplainar e preparar os seus caminhos,
77 anunciando ao seu povo a salvação, *
que está na remissão de seus pecados;

78 pela bondade e compaixão de nosso Deus, *
que sobre nós fará brilhar o Sol nascente,
79 para iluminar a quantos jazem entre as trevas *
= e na sombra da morte estão sentados 
e para dirigir os nossos passos, *
guiando-os no caminho da paz.
– Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo. *
Como era no princípio, agora e sempre. Amém.
Ant. Bendito seja o Senhor nosso Deus!

Preces Roguemos a Deus Pai, que colocou os seres humanos no mundo para trabalharem em harmonia para sua glória; e peçamos com fervor:
R. Senhor, ouvi-nos, para louvor da vossa glória!
Deus, Criador do universo, nós vos bendizemos por tantos bens da criação que nos destes,
 e pela vida que nos conservastes até este dia. R.
Olhai para nós ao iniciarmos o trabalho cotidiano, para que, colaborando na vossa obra, tudo façamos de acordo com a vossa vontade. R.
Fazei que o nosso trabalho de hoje seja proveitoso para os nossos irmãos e irmãs,– a fim de que todos juntos construamos uma sociedade mais justa e fraterna aos vossos olhos. R.
A nós e a todos os que neste dia se encontrarem conosco,– concedei a vossa alegria e vossa paz. R.
(intenções livres)
Pai nosso...
Oração
Senhor nosso Deus, Rei do céu e da terra, dirigi e santificai nossos corações e nossos corpos, ossos sentimentos, palavras e ações, na fidelidade à vossa lei e na obediência à vossa vontade, para que, hoje e sempre, por vós auxiliados, alcancemos a liberdade e a salvação. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

Conclusão da Hora
O Senhor nos abençoe,
nos livre de todo o mal
e nos conduza à vida eterna. Amém.
Membros de novas comunidades falam o que é ser leigo consagrado

Alexandre Santos, 28 de Janeiro de 2015 às 11h53. Atualizada em 29 de Janeiro de 2015 às 10h47.

Aos 17 anos, a secretária Luciana Brum resolveu entrar nas aulas de catequese para receber o sacramento do Batismo. Nesse período, ela viveu uma experiência pessoal com o amor de Deus. “A cada dia, eu percebia que Ele desejava algo mais de mim”, recorda.

Luciana conta que, após receber o sacramento da Crisma, começou a crescer dentro dela o desejo de ofertar-se inteiramente a Deus. Até que, num evento da Comunidade Católica Shalom, ouviu falar pela primeira vez sobre vida consagrada. “Ali não tive dúvidas de que o que o Senhor desejava para mim era consagrar-me a Deus em vista do outro, anunciando a Palavra com a própria vida”, relata.

Se você pensou que Luciana entrou para um convento e se tornou freira, está enganado. Ela faz parte de um tipo de consagração relativamente recente na Igreja Católica, porém já bastante difundido. Luciana é uma leiga consagrada.

No linguajar canônico, um leigo é um fiel católico que vive as realidades da Igreja, pode ter vida apostólica, ajudando nos trabalhos paroquiais, nas pastorais e movimentos sociais ou de evangelização. Porém não assume sobre si um compromisso de voto, como o fazem os religiosos e os padres. Ou seja, leigo é todo aquele que não é irmão nem freira nem padre, mas que participa da vida da Igreja.

Em 2015, a Igreja Católica celebra o Ano da Vida Consagrada. O ano celebrativo foi aberto oficialmente no dia 30 de novembro do ano passado, pelo Papa Francisco, e deve encerrar apenas no dia 2 de fevereiro de 2016.

Embora oficialmente a Igreja considere vida consagrada apenas sacerdotes e religiosos celibatários, nos últimos anos tem crescido em todo o mundo a figura dos leigos consagrados. Eles não são religiosos nem sacerdotes, mas assumem um compromisso de serviço e seguimento de um carisma. Geralmente, esse compromisso é feito nas chamadas Novas Comunidades. Esse fenômeno é relativamente recente na Igreja. A mais antiga comunidade nova no Brasil tem pouco mais de 30 anos. Quase nada, se comparado à história secular das ordens e congregações religiosas. Há leigos consagrados também em movimentos como o Focolares, fundado pela italiana Chiara Lubich.

Para Luciana, ser um leigo consagrado é dar uma resposta livre e fiel à vontade de Deus. “É abraçar uma vida de serviço à Igreja e ao Evangelho de Cristo, testemunhando no mundo a alegre experiência com o amor de Deus”, afirma. Segundo ela, a consagração consiste no serviço e no testemunho de Jesus Cristo, levando ao homem de hoje a palavra vivida. “Fazemos votos de pobreza, castidade e obediência. Esses abraçados com alegria para que ao mundo seja anunciada a paz”, conclui.



Sadia convivência

Há nove anos, Luciana é consagrada na Comunidade Católica Shalom, reconhecida pelo Vaticano e fundada por um leigo: Moisés Azevedo, que hoje é membro dos Pontifícios Conselhos para os Leigos e para a Nova Evangelização. Luciana é solteira, porém esses novos modos de consagração acolhem também casais

É o caso de Rubens e Tânia Sabino. Eles são membros definitivos da Comunidade Canção Nova, a mais antiga do país. O compromisso definitivo é, para o leigo consagrado, o equivalente aos votos perpétuos, para os religiosos. O casal hoje é responsável pela equipe de acompanhamento vocacional de novos membros.

“Ajudamos as pessoas que nos procuram a verificar se há um chamado de Deus para viver em nossa Comunidade, mediante os encontros vocacionais. A nossa função é reconhecer se essa pessoa traz em si o chamado ao nosso carisma, nosso jeito de ser e de viver. Caso ela não traga esse chamado, nós a auxiliamos, incentivamos e motivamos a continuar buscando seu lugar na Igreja. Se reconhecemos nela a identificação com o jeito de ser e viver Canção Nova, começamos a trabalhar a etapa inicial de formação. A definição do estado de vida é consequência da uma boa caminhada formativa”, argumenta.

Segundo Rubens, na maioria das novas comunidades, o período formativo dos membros dura o período de 4 anos. Após esse tempo, com conteúdos específicos de formação para cada ano, os membros se consagram. “As formações acontecem segundo as grades formativas de cada comunidade. Podem ser períodos de formação humana e espiritual com temas atualizados baseados na verdade do Evangelho”, explica.

Mas que características alguém que deseja ser um leigo consagrado precisa ter? De acordo com Rubens, o vocacionado precisa expressar uma profunda identificação com o carisma ao qual foi chamado. Em geral, expressam com a vida o desejo de mudança, para testemunhar a salvação de Cristo através do carisma com o qual se identifica e ao qual foi chamado.

Todo ano dezenas de pessoas procuram essas instituições para participar dos encontros vocacionais. Para Rubens Sabino, um dos fatores que têm atraído as pessoas é a beleza de viver em comunidade, com vários estados de vida, vivendo uma única consagração: homens, mulheres, casados, solteiros, crianças, lutando para viver em sadia convivência. “Mas o principal fator continua sendo a vivência da radicalidade do Evangelho É isso que, até hoje, atrai e seduz todo tipo de pessoa. Creio que essa novidade das Novas Comunidades dentro da Igreja, ao mesmo tempo que é um grande desafio, atrai as pessoas”, afirma.

Sabino defende que o maior desafio de falar de vocação, hoje, principalmente entre os jovens, é ensiná-los a não ter medo. “É conseguir fazê-los entender que ser inteiramente de Deus não abafa ou descaracteriza o que somos. Ao contrário, potencializa e nos leva a uma verdadeira liberdade interior”, argumenta.

Fonte: Jornal Santuário de Aparecida

Critérios de base para a aplicação do capítulo VIII da Amoris Laetitia Região Pastoral Buenos Aires

Estimados sacerdotes:
Recebemos com alegria a exortação Amoris Laetitia, que nos chama acima de tudo a fazer crescer o amor dos esposos e a motivar os jovens a optar pelo casamento e a família. Esses são os grandes temas que nunca deveriam ser esquecidos ou ofuscados por outras questões. Francisco abriu várias portas na pastoral familiar e nós somos chamados a aproveitar este tempo de misericórdia, para assumir como Igreja.
Agora vamos nos deter somente no capítulo VIII, uma vez que se refere a “orientação do Bispo” (300), a fim de discernir sobre o possível acesso aos sacramentos por alguns “divorciados numa nova união”. Acreditamos ser conveniente, como bispos de uma mesma região pastoral, concordarmos em alguns critérios mínimos. Assim oferecemos, sem prejuízo para a autoridade que cada Bispo tem sobre sua própria diocese para esclarecê-los, complementá-los ou limitá-los.
1) Em primeiro lugar recordamos que não convém falar em “permissão” para aceder aos sacramentos, mas sim um processo de discernimento acompanhado por um pastor. É um discernimento “pessoal e pastoral” (300).
2) Neste caminho, o pastor deveria enfatizar o anúncio fundamental, o kerygma, que estimule ou renove o encontro pessoal com Jesus Cristo vivo (cf. 58).
3) O acompanhamento pastoral é um exercício da ‘via caritatis “. É um convite a seguir “o caminho de Jesus , o da misericórdia e de integração” (296). Este itinerário apela para a caridade pastoral do sacerdote que acolhe o penitente, o ouve com atenção e mostra o rosto materno da Igreja, uma vez que aceita a sua boa intenção e seu bom propósito de colocar a vida inteira à luz do Evangelho e de praticar a caridade (cf. 306).
4) Este caminho, não termina necessariamente nos sacramentos, mas pode orientar-se para outros modos de se integrar mais na vida da Igreja: uma maior presença na comunidade, a participação em grupos de oração ou reflexão, o compromisso em diversos serviços eclesiais , etc. (Cf. 299).
5) Quando as circunstâncias específicas de um casal tornam isso possível, especialmente quando ambos são cristãos com uma jornada de fé, se pode propor o compromisso de viver em continência. Amoris Laetitia não ignora as dificuldades desta opção (ver nota 329) e deixa em aberto a possibilidade de acesso ao Sacramento da Reconciliação quando eles falharem nesse propósito (ver nota 364, de acordo com o ensinamento de João Paulo 11 ao Cardeal W . Baum, de 22/03/1996).
6) Em outras circunstâncias mais complexas, e quando eles não puderem obter uma declaração de nulidade, a opção acima mencionada pode não ser viável de fato. No entanto, é também possível um caminho de discernimento. Se vier a reconhecer que, num caso particular, há limitações que diminuem a responsabilidade e culpa (cf. 301-302), particularmente quando uma pessoa considerar que cairia em uma falta subsequente prejudicial aos filhos da nova união, Amoris Laetitia abre a possibilidade de acesso aos sacramentos da Reconciliação e da Eucaristia (cf. notas 336 e 351). Estes, por sua vez, dispoem a pessoa a continuar a amadurecer e crescer com o poder da graça.
7) Todavia há que se evitar entender esta possibilidade, como sendo um acesso irrestrito aos sacramentos, ou como se qualquer situação pudesse ser justificada. O que se propõe é um discernimento que distinga adequadamente cada caso. Por exemplo, um cuidado especial exige-se para  “uma nova união que vem de um recente divórcio” ou “a situação de alguém que tenha falhado repetidamente em seus compromissos familiares” (298). Além disso, quando há uma espécie de apologia ou ostentação da própria situação”, como se ela fosse parte do ideal cristão” (297). Nestes casos mais difíceis, os pastores devem acompanhar pacientemente à procura de um caminho de integração (cf. 297, 299).
8) É sempre importante orientar as pessoas a colocar a sua consciência diante de Deus, e para isso é útil o “exame de consciência”, proposto em Amoris Laetitia 300, especialmente no que diz respeito a “como eles têm se comportado com seus filhos” ou com relação ao cônjuge abandonado. Quando houver injustiças não resolvidas, o acesso aos sacramentos é particularmente escandaloso.
9) Pode ser conveniente que um eventual acesso aos sacramentos se realize de forma reservada, especialmente quando situações de conflito estão previstas. Mas ao mesmo tempo não há que deixar de acompanhar a comunidade para que cresça num espírito de compreensão e acolhida, sem que isso implique em criar confusão no ensinamento da Igreja sobre o matrimónio indissolúvel. A comunidade é um instrumento da misericórdia que é “imerecida, incondicional e gratuita” (297).
10) O discernimento não se fecha, porque “é dinâmico e deve permanecer sempre aberto a novas etapas de crescimento e novas decisões que permitam realizar o ideal de maneira mais plena ” (303), segundo a “lei da gradualidade” (295) e contando com a ajuda da graça.
Somos antes de tudo pastores. Por isso, queremos acolher estas palavras do Papa: “Convido os pastores a escutar com carinho e serenidade, com o sincero desejo de entrar no coração do drama das pessoas e compreender seu ponto de vista, para ajudá-los a viver melhor e reconhecer o seu próprio lugar na Igreja “(312).
Com afeto em Cristo.
Bispos da Região
05 de setembro de 2016
* * *
O texto completo da carta original Papa Francisco em espanhol – escrito em resposta a este documento – pode ser visto a seguir:
Carta do Papa Francisco em apoio aos critérios de aplicação do capítulo VIII da “Amoris Laetitia”
CIDADE DO VATICANO, 05 de setembro de 2016
Mons. Sergio Alfredo Fenoy
Delegado da Região Pastoral Buenos Aires
Querido irmão:
Eu recebi a carta da Região Pastoral Buenos Aires “critérios básicos para a aplicação do capítulo VIII da Amoris Laetitia”. Muito obrigado por tê-la me enviado e felicito-os pelo trabalho que executaram: um verdadeiro exemplo de acompanhamento para os sacerdotes … e todos nós sabemos como é necessário essa proximidade do bispo com o clero e do clero com o bispo. O próximo “mais próximo” do bispo é o sacerdote e o mandamento de amar o próximo como a si mesmo começa para nós bispos,  precisamente com os nossos sacerdotes.
A carta é muito boa e expressa plenamente o sentido do Capítulo VIII da Amoris Laetitia. Não há outras interpretações. E eu tenho certeza de que fará muito bem. Que o Senhor os recompense por esse esforço de caridade pastoral.
E é precisamente a caridade pastoral que nos move a sair ao encontro dos alijados e uma vez encontrados, iniciar um caminho de acolhida, acompanhamento, discernimento e integração na comunidade eclesial. Sabemos que isso é trabalhoso, se trata de uma pastoral “corpo a corpo” que não se satisfaz com mediações programadas, organizacionais ou legalistas, mas necessária. Simplesmente acolher, acompanhar, discernir, integrar. Destas quatro atitudes pastorais, a menos cultivada e praticada é o discernimento; e eu considero urgente a formação no discernimento, pessoal e comunitário, em nossos seminários e presbitérios.
Finalmente, gostaria de lembrar que Amoris Laetitia foi o fruto do trabalho e da oração de toda a Igreja, com a mediação de dois Sínodos e do Papa. Portanto, eu lhes recomendo uma catequese completa da Exortação que certamente vai ajudar no crescimento, consolidação e santidade da família.
Mais uma vez agradeço-lhe pelo trabalho realizado e incentivo-os a seguir em frente nas diversas comunidades da diocese, com o estudo e a catequese da Amoris Laetitia.
Por favor, não se esqueçam de rezar e rezar por mim.
Que Jesus os abençoe e a Virgem os cuide.
Fraternalmente
Francisco

A ALEGRIA DO AMOR - SÍNTESE

Leia a síntese da Exortação "A alegria do amor"

Papa recebe abraço de crianças no México - AFP
08/04/2016 12:00
Cidade do Vaticano (RV) - Amoris laetitia” (AL - “A alegria do amor”), aExortação apostólica pós-sinodal “sobre o amor na família”, datada não por acaso de 19 de março, Solenidade de S. José, recolhe os resultados de dois Sínodos sobre a família convocados pelo Papa Francisco em 2014 e 2015, cujas Relações conclusivas são abundantemente citadas, juntamente com documentos e ensinamentos dos seus Predecessores e as numerosas catequeses sobre a família do próprio Papa Francisco. Contudo, como já sucedeu noutros documentos magisteriais, o Papa recorre também a contributos de diversas Conferências episcopais de todo o mundo (Quênia, Austrália, Argentina...) e a citações de personalidades de relevo, como Martin Luther King ou Erich Fromm. Ressalta em particular uma citação do filme “A Festa de Babette”, que o Papa recorda para explicar o conceito de gratuitidade.
Premissa
A Exortação apostólica chama a atenção pela sua amplitude e articulação. Está dividida em nove capítulos e mais de 300 parágrafos. Tem início com sete parágrafos introdutórios que evidenciam a plena consciência da complexidade do tema, que requer ser aprofundado. Afirma-se que as intervenções dos Padres no Sínodo constituíram um «precioso poliedro» (AL 4) que deve ser preservado. Neste sentido, o Papa escreve que «nem todas as discussões doutrinais, morais ou pastorais devem ser resolvidas através de intervenções magisteriais». Por conseguinte, para algumas questões «em cada país ou região, é possível buscar soluções mais inculturadas, atentas às tradições e aos desafios locais. De facto,“as culturas são muito diferentes entre si e cada princípio geral (...), se quiser ser observado e aplicado, precisa de ser inculturado”» (AL 3). Este princípio de inculturação revela-se como muito importante até no modo de articular e compreender os problemas, modo esse que, sem entrar nas questões dogmáticas bem definidas pelo Magistério da Igreja, não pode ser «globalizado».
Mas sobretudo o Papa afirma de imediato e com clareza que é necessário sair da estéril contraposição entre a ânsia de mudança e a aplicação pura e simples de normas abstratas. Escreve: «Os debates, que têm lugar nos meios de comunicação ou em publicações e mesmo entre ministros da Igreja, estendem-se desde o desejo desenfreado de mudar tudo sem suficiente reflexão ou fundamentação até à atitude que pretende resolver tudo através da aplicação de normas gerais ou deduzindo conclusões excessivas de algumas reflexões teológicas» (AL 2).
Capítulo primeiro: “À luz da Palavra”
Enunciadas estas premissas, o Papa articula a sua reflexão a partir das Sagradas Escrituras no primeiro capítulo, que se desenvolve como uma meditação acerca do Salmo 128, característico da liturgia nupcial hebraica, assim como da cristã. A Bíblia «aparece cheia de famílias, gerações, histórias de amor e de crises familiares» (AL 8) e a partir deste dado pode meditar-se como a família não é um ideal abstrato, mas uma «tarefa “artesanal”» (AL 16) que se exprime com ternura (AL 28), mas que se viu confrontada desde o início também pelo pecado, quando a relação de amor se transformou em domínio (cf. AL 19). Então, a Palavra de Deus «não se apresenta como uma sequência de teses abstratas, mas como uma companheira de viagem, mesmo para as famílias que estão em crise ou imersas nalguma tribulação, mostrando-lhes a meta do caminho» (AL 22).
Capítulo segundo: “A realidade e os desafios das famílias”
Partindo do terreno bíblico, o Papa considera no segundo capítulo a situação atual das famílias, mantendo «os pés assentes na terra» (AL 6), bebendo com abundância das Relações conclusivas dos dois Sínodo se enfrentando numerosos desafios, desde o fenômeno migratório à negação ideológica da diferença de sexo («ideologia de gênero»); da cultura do provisório à mentalidade anti-natalidade e ao impacto das biotecnologias no campo da procriação; da falta de habitação e de trabalho à pornografia e ao abuso de menores; da atenção às pessoas com deficiência ao respeito pelos idosos; da desconstrução jurídica da família à violência para com as mulheres. O Papa insiste no carácter concreto, que é um elemento fundamental da Exortação. E é este carácter concreto e realista que estabelece uma diferença substancial entre «teorias» de interpretação da realidade e «ideologias».
Citando a Familiaris consortio, Francisco afirma que «é salutar prestar atenção à realidade concreta, porque “os pedidos e os apelos do Espírito ressoam também nos acontecimentos da história” através dos quais “a Igreja pode ser guiada para uma compreensão mais profundado inexaurível mistério do matrimônio e da família”» (AL 31). Sem escutar a realidade não é possível compreender nem as exigências do presente nem os apelos do Espírito. O Papa nota que o individualismo exacerbado torna hoje difícil a doação a uma outra pessoa de uma maneira generosa (cf. AL 33). Eis um interessante retrato da situação: «Teme-se a solidão, deseja-se um espaço de proteção e fidelidade mas, ao mesmo tempo, cresce o medo de ficar encurralado numa relação que possa adiar a satisfação das aspirações pessoais» (AL 34).
A humildade do realismo ajuda a não apresentar «um ideal teológico do matrimônio demasiado abstrato, construído quase artificialmente, distante da situação concreta e das possibilidades efetivas das famílias tais como são» (AL 36). O idealismo não permite considerar o matrimônio assim como é, ou seja, «um caminho dinâmico de crescimento e realização». Por isso, também não se pode julgar que se possa apoiar as famílias «com a simples insistência em questões doutrinais, bioéticas e morais, sem motivar a abertura à graça» (AL 37). Convidando a uma certa “autocrítica” de uma apresentação não adequada da realidade matrimonial e familiar, o Papa insiste na necessidade de dar espaço à formação da consciência dos fiéis: «Somos chamados aformar as consciências, não a pretender substituí-las» (AL37). Jesus propunha um ideal exigente, mas «não perdia jamais a proximidade compassiva às pessoas frágeis como a samaritana ou a mulher adúltera» (AL 38).
Capítulo terceiro: “O olhar fixo em Jesus: a vocação da família”
O terceiro capítulo é dedicado a alguns elementos essenciais do ensinamento da Igreja acerca do matrimônio e da família. É importante a presença deste capítulo, porque ilustra de uma maneira sintética em 30 parágrafos a vocação à família de acordo com o Evangelho, assim como ela foi recebida pela Igreja ao longo do tempo, sobretudo quanto ao tema da indissolubilidade, da sacramentalidade do matrimônio, da transmissão da vida e da educação dos filhos. Fazem-se inúmeras citações da Gaudium et spes do Vaticano II, daHumanae vitae de Paulo VI, da Familiaris consortio de João Paulo II. 
O olhar é amplo e inclui também as «situações imperfeitas». Com efeito, lemos: «“O discernimento da presença das semina Verbi nas outras culturas (cf. Ad gentes, 11) pode-se aplicar também à realidade matrimonial e familiar. Para além do verdadeiro matrimônio natural, há elementos positivos também nas formas matrimoniais doutras tradições religiosas”, embora não faltem também as sombras» (AL 77). A reflexão inclui ainda as «famílias feridas», a propósito das quais o Papa afirma - citando a Relatio finalis do Sínodo de 2015 —«é preciso lembrar sempre um princípio geral: “Saibam os pastores que, por amor à verdade, estão obrigados a discernir bem as situações” (Familiaris consortio, 84). O grau de responsabilidade não é igual em todos os casos, e podem existir fatores que limitem a capacidade de decisão. Por isso, ao mesmo tempo que se exprime com clareza adoutrina, há que evitar juízos que não tenham em conta a complexidade das diferentes situações,e é preciso estar atentos ao modo como as pessoas vivem e sofrem por causa da sua condição» (AL 79).
Capítulo quarto: “O amor no matrimónio”
O quarto capítulo trata do amor no matrimônio e ilustra-o a partir do “hino ao amor” de São Paulo de 1 Cor 13, 4-7. O capítulo é uma verdadeira e autêntica exegese cuidadosa, precisa, inspirada e poética do texto paulino. Poderemos dizer que se trata de uma coleção de fragmentos de um discurso amoroso que cuida de descrever o amor humano em termos absolutamente concretos. Surpreende-nos a capacidade de introspeção psicológica evidenciada por esta exegese. O aprofundamento psicológico chega ao mundo das emoções dos cônjuges - positivas e negativas - e à dimensão erótica do amor.Este é um contributo extremamente rico e precioso para a vida cristã dos cônjuges, que não tinha até agora paralelo em anteriores documentos papais.
À sua maneira, este capítulo constitui um pequeno tratado no conjunto de um desenvolvimento mais amplo, plenamente consciente do carácter quotidiano do amor que se opõe a todos os idealismos: «não se deve atirar para cima de duas pessoas limitadas o peso tremendo de ter que reproduzir perfeitamente a união que existe entre Cristo e a sua Igreja, porque o matrimônio como sinal implica “um processo dinâmico, que avança gradualmente com a progressiva integração dos dons de Deus”» (AL 122). Mas, por outro lado, o Papa insiste de modo enérgico e firme no facto de que «na própria natureza do amor conjugal, existe a abertura ao definitivo» (AL 123) precisamente no íntimo daquela «combinação necessária de alegrias e fadigas, de tensões e repouso, de sofrimentos e libertações, de satisfações e buscas, de aborrecimentos e prazeres» (Al 126) que é de facto o matrimônio.
O capítulo conclui-se com uma reflexão muito importante acerca da «transformação do amor» uma vez que «o alongamento da vida provocou algo que não era comum noutros tempos: a relação íntima e a mútua pertença devem ser mantidas durante quatro, cinco ou seis décadas, e isto gera a necessidade de renovar repetidas vezes a recíproca escolha» (AL 163). A aparência física transforma-se e a atração amorosa não desaparece, mas muda: com o tempo, o desejo sexual pode transformar-se em desejo de intimidade e «cumplicidade». «Não é possível prometer que teremos os mesmos sentimentos durante a vida inteira; mas podemos ter um projeto comum estável, comprometer-nos a amar-nos e a viver unidos até que a morte nos separe, e viver sempre uma rica intimidade» (AL 163).
Capítulo quinto: “O amor que se torna fecundo”
O quinto capítulo centra-se por completo na fecundidade e no carácter gerador do amor. Fala-se de uma maneira espiritualmente e psicologicamente profunda do acolher uma nova vida, da espera própria da gravidez, do amor de mãe e de pai. Mas também da fecundidade alargada, da adoção, do acolhimento do contributo das famílias para a promoção de uma “cultura do encontro”, da vida na família em sentido amplo, com a presença de tios, primos, parentes dos parentes, amigos. A Amoris laetitia não toma em consideração a família «mononuclear», mas está bem consciente da família como rede de relações alargadas. A própria mística do sacramento do matrimônio tem um profundo carácter social (cf. AL 186). E no âmbito desta dimensão social, o Papa sublinha em particular tanto o papel específico da relação entre jovens e idosos, como a relação entre irmãos como aprendizagem de crescimento na relação com os outros.
Capítulo sexto: “Algumas perspetivas pastorais”
No sexto capítulo, o Papa aborda algumas vias pastorais que orientam para a edificação de famílias sólidas e fecundas de acordo com o plano de Deus. Nesta parte, a Exortação recorre às Relações conclusivas dos dois Sínodos e às catequeses do Papa Francisco e de João Paulo II. Volta-se a sublinhar que as famílias são sujeito e não apenas objeto de evangelização. O Papa observa que «os ministros ordenados carecem, habitualmente, de formação adequada para tratar dos complexos problemas atuais das famílias» (AL 202). Se, por um lado, é necessário melhorar a formação psicoafetiva dos seminaristas e envolver mais a família na formação para o ministério (cf. AL 203), por outro «pode ser útil também a experiência da longa tradição oriental dos sacerdotes casados» (AL 202).
Em seguida, o Papa desenvolve o tema da orientação dos noivos no caminho de preparação para o matrimônio, do acompanhamento dos esposos nos primeiros anos da vida matrimonial (incluindo o tema da paternidade responsável), mas também em algumas situações complexas e, em particular, nas crises, sabendo que «cada crise esconde uma boa notícia, que é preciso saber escutar, afinando os ouvidos do coração» (AL 232). São analisadas algumas causas de crise, entre elas uma maturação afetiva retardada (cf. AL 239).
Além disso, fala-se também do acompanhamento das pessoas abandonadas, separadas ou divorciadas e sublinha-se a importância da recente reforma dos procedimentos para o reconhecimento dos casos de nulidade matrimonial. Coloca-se em relevo o sofrimento dos filhos nas situações de conflito e conclui-se: «O divórcio é um mal, e é muito preocupante o aumento do número de divórcios. Por isso, sem dúvida, a nossa tarefa pastoral mais importante relativamente às famílias é reforçar o amor e ajudar a curar as feridas, para podermos impedir o avanço deste drama do nosso tempo» (AL 246). Referem-se de seguida as situações dos matrimônios mistos e daqueles com disparidade de culto, e a situação das famílias que têm dentro de si pessoas com tendência homossexual, insistindo no respeito para com elas e na recusa de qualquer discriminação injusta e de todas das formas de agressão e violência. A parte final do capítulo, «quando a morte crava o seu aguilhão», é de grande valor pastoral, tocando o tema da perda das pessoas queridas e da viuvez.
Capítulo sétimo: “Reforçar a educação dos filhos”
O sétimo capítulo é totalmente dedicado à educação dos filhos: a sua formação ética, o valor da sanção como estímulo, o realismo paciente, a educação sexual, a transmissão da fé e, mais em geral, a vida familiar como contexto educativo. É interessante a sabedoria prática que transparece em cada parágrafo e sobretudo a atenção à gradualidade e aos pequenos passos que «possam ser compreendidos, aceites e apreciados» (AL 271).
Há um parágrafo particularmente significativo e de um valor pedagógico fundamental em que Francisco afirma com clareza que «a obsessão (...) não é educativa; e também não é possível ter o controle de todas as situações onde um filho poderá chegar a encontrar-se (...). Se um progenitor está obcecado com saber onde está o seu filho e controlar todos os seus movimentos, procurará apenas dominar o seu espaço. Mas, desta forma, não o educará, não o reforçará, não o preparará para enfrentar os desafios. O que interessa acima de tudo é gerar no filho, com muito amor, processos de amadurecimento da sua liberdade, de preparação, de crescimento integral, de cultivo da autêntica autonomia» (AL 261).
A secção dedicada à educação sexual é notável, e intitula-se muito expressivamente: «Sim à educação sexual». Sustenta-se a sua necessidade e formula-se a interrogação de saber «se as nossas instituições educativas assumiram este desafio (…) num tempo em que se tende a banalizar e empobrecer a sexualidade». A educação sexual deve ser realizada«no contexto duma educação para o amor, para a doação mútua» (AL 280). É feita uma advertência em relação à expressão «sexo seguro», pois transmite«uma atitude negativa a respeito da finalidade procriadora natural da sexualidade, como se um possível filho fosse um inimigo de que é preciso proteger-se. Deste modo promove-se a agressividade narcisista, em vez do acolhimento» (AL 283).
Capítulo oitavo: “Acompanhar, discernir e integrar a fragilidade”
O capítulo oitavo representa um convite à misericórdia e ao discernimento pastoral diante de situações que não correspondem plenamente ao que o Senhor propõe. O Papa usa aqui três verbos muito importantes: «acompanhar, discernir e integrar», os quais são fundamentais para responder a situações de fragilidade, complexas ou irregulares. Em seguida, apresenta a necessária gradualidade na pastoral, a importância do discernimento, as normas e circunstâncias atenuantes no discernimento pastoral e, por fim, aquela que é por ele definida como a «lógica da misericórdia pastoral».
O oitavo capítulo é muito delicado. Na sua leitura deve recordar-se que «muitas vezes, o trabalho da Igreja é semelhante ao de um hospital de campanha» (AL 291). O Pontífice assume aqui aquilo que foi fruto da reflexão do Sínodo acerca de temáticas controversas. Reforça-se o que é o matrimônio cristão e acrescenta-se que «algumas formas de união contradizem radicalmente este ideal, enquanto outras o realizam pelo menos de forma parcial e analógica». Por conseguinte, «a Igreja não deixa de valorizar os elementos construtivos nas situações que ainda não correspondem ou já não correspondem à sua doutrina sobre o matrimônio» (AL 292).
No que respeita ao «discernimento» acerca das situações «irregulares», o Papa observa: «temos de evitar juízos que não tenham em conta a complexidade das diversas situações e é necessário estar atentos ao modo em que as pessoas vivem e sofrem por causa da sua condição» (AL 296). E continua: «Trata-se de integrar a todos, deve-se ajudar cada um a encontrar a sua própria maneira de participar na comunidade eclesial, para que se sinta objeto duma misericórdia “imerecida, incondicional e gratuita”»(AL 297). E ainda: «Os divorciados que vivem numa nova união, por exemplo, podem encontrar-se em situações muito diferentes, que não devem ser catalogadas ou encerradas em afirmações demasiado rígidas, sem deixar espaço para um adequado discernimento pessoal e pastoral» (AL 298).
Nesta linha, acolhendo as observações de muitos Padres sinodais , o Papa afirma que «os batizados que se divorciaram e voltaram a casar civilmente devem ser mais integrados na comunidade cristã sob as diferentes formas possíveis, evitando toda a ocasião de escândalo». «A sua participação pode exprimir-se em diferentes serviços eclesiais (…).Não devem sentir-se excomungados, mas podem viver e maturar como membros vivos da Igreja (…). Esta integração é necessária também para o cuidado e a educação cristã dos seus filhos» (AL 299).
Mais em geral, o Papa profere uma afirmação extremamente importante para que se compreenda a orientação e o sentido da Exortação: «Se se tiver em conta a variedade inumerável de situações concretas (…) é compreensível que se não devia esperar do Sínodo ou desta Exortação uma nova normativa geral de tipo canônico, aplicável a todos os casos. É possível apenas um novo encorajamento a um responsável discernimento pessoal e pastoral dos casos particulares, que deveria reconhecer: uma vez que “o grau de responsabilidade não é igual em todos os casos”, as consequências ou efeitos duma norma não devem necessariamente ser sempre os mesmos» (AL 300). O Papa desenvolve em profundidade as exigências e características do caminho de acompanhamento e discernimento em diálogo profundo entre fiéis e pastores. A este propósito, faz apelo à reflexão da Igreja «sobre os condicionamentos e as circunstâncias atenuantes» no que respeita à imputabilidade das ações e, apoiando-se em S. Tomás de Aquino, detém-se na relação entre «as normas e o discernimento», afirmando: «É verdade que as normas gerais apresentam um bem que nunca se deve ignorar nem transcurar, mas, na sua formulação, não podem abarcar absolutamente todas as situações particulares. Ao mesmo tempo é preciso afirmar que, precisamente por esta razão, aquilo que faz parte dum discernimento prático duma situação particular não pode ser elevado à categoria de norma» (AL 304).
Na última secção do capítulo, «A lógica da misericórdia pastoral», o Papa Francisco, para evitar equívocos, reafirma com vigor: «A compreensão pelas situações excecionais não implica jamais esconder a luz do ideal mais pleno, nem propor menos de quanto Jesus oferece ao ser humano. Hoje, mais importante do que uma pastoral dos falimentos é o esforço pastoral para consolidar os matrimônio se assim evitar as ruturas» (AL 307). Mas o sentido abrangente do capítulo e do espírito que o Papa Francisco pretende imprimir à pastoral da Igreja encontra um resumo adequado nas palavras finais: «Convido os fiéis, que vivem situações complexas, a aproximar-se com confiança para falar com os seus pastores ou com leigos que vivem entregues ao Senhor. Nem sempre encontrarão neles uma confirmação das próprias ideias ou desejos, mas seguramente receberão uma luz que lhes permita compreender melhor o que está a acontecer e poderão descobrir um caminho de amadurecimento pessoal. E convido os pastores a escutar, com carinho e serenidade, com o desejo sincero de entrar no coração do drama das pessoas e compreender o seu ponto de vista, para ajudá-las a viver melhor e reconhecer o seu lugar na Igreja» (AL 312). Acerca da «lógica da misericórdia pastoral», o Papa Francisco afirma com força: «Às vezes custa-nos muito dar lugar, na pastoral, ao amor incondicional de Deus. Pomos tantas condições à misericórdia que a esvaziamos de sentido concreto e real significado, e esta é a pior maneira de aguar o Evangelho» (AL 311).
Capítulo nono: “Espiritualidade conjugal e familiar”
O nono capítulo é dedicado à espiritualidade conjugal e familiar, «feita de milhares de gestos reais e concretos» (AL 315). Diz-se com clareza que «aqueles que têm desejos espirituais profundos não devem sentir que a família os afasta do crescimento na vida do Espírito, mas é um percurso de que o Senhor Se serve para os levar às alturas da união mística» (AL 316). Tudo, «os momentos de alegria, o descanso ou a festa, e mesmo a sexualidade são sentidos como uma participação na vida plena da sua Ressurreição» (AL 317). Fala-se de seguida da oração à luz da Páscoa, da espiritualidade do amor exclusivo e livre diante do desafio e do desejo de envelhecer e gastar-se juntos, refletindo a fidelidade de Deus (cf. AL 319). E, por fim, a espiritualidade «da solicitude, da consolação e do estímulo». «Toda a vida da família é um “pastoreio” misericordioso. Cada um, cuidadosamente, desenha e escreve na vida do outro» (AL 322), escreve o Papa. «É uma experiência espiritual profunda contemplar cada ente querido com os olhos de Deus e reconhecer Cristo nele» (AL 323).
No parágrafo conclusivo,o Papa afirma: «Nenhuma família é uma realidade perfeita e confeccionada duma vez para sempre, mas requer um progressivo amadurecimento da sua capacidade de amar. (…). Todos somos chamados a manter viva a tensão para algo mais além de nós mesmos e dos nossos limites, e cada família deve viver neste estímulo constante. Avancemos, famílias; continuemos a caminhar! (…). Não percamos a esperança por causa dos nossos limites, mas também não renunciemos a procurar a plenitude de amor e comunhão que nos foi prometida» (AL 325).
A Exortação apostólica conclui-se com uma Oração à Sagrada Família (AL 325).
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Como já se pode depreender a partir de um rápido exame dos seus conteúdos, a Exortação apostólica Amoris laetitia pretende reafirmar com força não o «ideal» da família, mas a sua realidade rica e complexa. Há nas suas páginas um olhar aberto, profundamente positivo, que se nutre não de abstrações ou projeções ideais, mas de uma atenção pastoral à realidade. O documento é uma leitura densa de motivos espirituais e de sabedoria prática útil a cada casal ou a pessoas que desejam construir uma família. Nota-se sobretudo que foi fruto de uma experiência concreta com pessoas que sabem a partir da experiência o que é a família e o viver juntos durante muitos anos. A Exortação fala de fato a linguagem da experiência e da esperança.

Um pedaço de pão molhado ao molho

Você já reparou que, misteriosamente, o ser humano responde com ingratidão e indiferença o bem que lhe é feito?

Filhos que valorizam os ídolos mas nao respeitam os seus pais. Pessoas que abusam quem lhe fez um empréstimo na hora da dificuldade. Indiferença nos tempos de bonança para com quem fez caridade nos tempos de escassez. É lamentável, mas isto acontece não poucas vezes.

E isto aconteceu também com Jesus. Ele, que nunca cometeu pecado algum, sofreu em si todas as contrariedades da naturza humana decaída. No Evangelho (Jo 13,21ss) vemos Jesus sendo traído por ninguém menos que Judas Iscariotes, aquele que Ele tirou do anonimato e colocou no seu círculo de amigos.

Judas representa o mistério do mal presente no mundo e na espécie humana. É um mistério porque não compreendemos porque o mal acontece, mas o experimentamos no dia a dia e quanto mais o experimentamos, mas sentimos a sua crueldade.

No Evangelho, ao vislumbrar a hora da traição do "amigo", Jesus entrega a Judas um pedaço de pão molhado no molho. Enquanto o beijo de Judas será o sinal da falsidade, este gesto de cortesia de Jesus revela o seu amor, ternura e sinceridade.

Àquele que lhe trairá, Jesus serve um pedaço de pão molhado no molho. Isto significa que, não veio para ser servido, mas para servir e que, tendo amado os seus, amou-os até o fim, inclusive Judas Iscariotes, o falso, o hipócrita, o picador não arrependido.

O mistério do mal existe e é atuante. Judas demonstra esta triste realidade. Mas Jesus paga o mal com o bem, porque só vence o mal. O amor não é interesseiro, é paciente e visa sempre o bem do outro. (1Cor 13)

Jesus oferecerá a sua vida na Cruz do Calvário. O mal, o ódio e Satanás serão vencidos e o pecado do homem, redimido. No terceiro dia, Jesus ressuscitará, o bem vencerá, o amor triunfará.

No hoje da nossa história somos chamados a unir o nosso sofrimento por amor ao sofrimento redentor de Cristo, pela Igreja, pela humanidade. (Col 1,24)

Quando formos contrariados, perseguidos e injustiçados. Quando recebermos ingratidão e humilhação, lembremo-nos de Jesus Crucificado. Não paguemos o mal com o mal. Nem adentremos na vingança, porque a vingança não cura e nem redime, ela apenas perpetua o mal.

Possamos servir com delicadeza e sinceridade um pedaco de pão molhado ao molho, pão do perdão, paciencia e misericórdia a quem nos trair e perseguir com ingratidão, falsidade e hipocrisia. O amor sempre vence o mal.

Jesus nos dá o grande exemplo a seguir.

O mal existe e é atuante, mas o amor que nos faz fazer o bem é o único que o vence e redime a natureza humana decaída.

O que seria do mundo se não existissem aqueles que insistem em servir um pedaço de pão molhado ao molho a quem é obreiro da maldade.

Em Cristo Jesus,


Pe. Marcos Oliveira, djc